19/04/2008
Ano 11 - Número 577



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde



Charrettes e motivos para voltar às cidades

 

Meios de transporte evoluíram e as charretes continuam, permitindo enxergar certas cidades com o sabor do tempo. Mas inovações também vêm acontecendo nas charretes. Aliás, não propriamente nas charretes, mas nos cavalos que puxam as charretes. Tiradentes, em Minas Gerais, e Savannah, no litoral da Geórgia, Estados Unidos, têm algo em comum: colocam “fraldões” nos cavalos. Há quem conteste, eu achei boa idéia para os que circulam na cidade. Se os pequenos dejetos dos cachorros devem ser recolhidos por seus donos...

Em Athens, na Geórgia, fazem e exportam charretes diferentes. Inspiram-se naquelas do século XIX, da Escola de Belas Artes de Paris. Pequenos carros (charrettes, em francês) passavam entre as mesas de trabalho dos alunos, no prazo final, para eles colocarem seus trabalhos. As charrettes de Athens são equipes do College of Environment of Design, da Universidade da Geórgia, coordenadas pelo Prof. Pratt Cassity. Vão a cidades que desejam sua revitalização histórica, arquitetônica e paisagística, resgatando valores que as diferenciam. Com as lideranças, de forma intensiva, acontece o estudo das características e problemas locais. E o que eles querem para o lugar onde vivem. O documento final é organizado pela Universidade que entrega à cidade como referencial para suas iniciativas de melhoramento.

Constatei que as charrettes têm dado certo, como em Harlem, na Geórgia, cidade natal do Hardy, o gordo, da dupla cômica “O Gordo e o Magro”.  A valorização do patrimônio desta cidade pequena, com cerca de 5 mil habitantes, destacando o  Museu sobre a dupla famosa, a coloca no cenário mundial. Outro exemplo encontrei no jornal The Telfair Enterprise, da Geórgia.  Na sua edição de 27 de outubro de 2004 apresentou o relatório final da charrette realizada na cidade McRae-Helena, num encarte de oito páginas. Inédito. Com isto, The Telfair Enterprise também entrou para história.

Em 2004 fui a uma charrette em Athens. Elegeram a principal artéria – Prince Avenue. Avenida extensa com edificações seculares e descaracterização em alguns trechos, afetando o conjunto. Num dos momentos da charrette, houve passeio a pé. Fazia calor. Em grupos, reconhecemos o espaço físico e social. Árvores nativas e adaptadas, centenárias. Carvalhos, ginko biloba, “japanese maple”, magnólias... As árvores que ainda persistem é um dos aspectos que os moradores mais gostam. Concordei, desfrutando de uma boa sombra. Não entendia a profundidade até chegar o outono. As folhas se exibem em tons marrom, pêssego, prata, amarelo e vermelho, ao lado de verdes perenes. Aos poucos, cobrem as raízes protegendo-as do frio que desponta. Deitam-se nos gramados e calçadas, deixando que as toquem. Sons diferentes sob os pés. Puro carinho.

Conhecia de nome ginko biloba, não em monumentos naturais. Contaram-me que especialmente os moradores chineses não deixam desperdiçar seus frutos que caem em profusão. E falam que na primavera a Prince Avenue é uma alameda florida. Um dos motivos para retornar a Athens.




(19 de abril/2008)
CooJornal no 577

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br