26/04/2008
Ano 11 - Número 578



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde




Sinto um cheiro no ar
 

O dia da formatura tão sonhado não aconteceu. Breve cerimônia de colação de grau, uma aluna recebeu o diploma por todos. Na entrada, soldados empunhando armas. O zum-zum é que esperavam os professores – seriam detidos. Ninguém apareceu, só o interventor.

Em casa, recomendações que não se metesse em encrenca. Pensar e não se expressar. Como fazer isso? Sem saber, certos revezes que não chegaram a ser fichados, ou foram e não ficamos sabendo? Alguns conhecidos certamente não tiveram a mesma sorte. Outros enterravam livros. Uma época de sombras, quando pessoas eram impedidas de exercer seu direito de escolha. Quando pessoas usavam seus cargos para perseguições pessoais, perversidade até então oculta. Passou? Pra que lado? O tempo mudou, as estratégias também. Sinto um cheiro no ar.

O mundo da comunicação está tão avançado que se não temos raciocínio crítico (e mesmo tendo), impõe pensamentos, bota palavras na sua boca, assusta... Políticos não poderiam ser donos de emissoras de rádio ou tv, mas são. E se há impedimentos, membros da família assumem o comando ou beneficiam uma rede com tanta publicidade que o meio acolhe a conveniência e fica parcial. E na emissora pública mostram a versão dos fatos que lhes convém. Isto é ou não é uma forma de repressão?

O que nos vale é a impermanência das situações, senão Roma ainda seria o centro da Terra. O que nos vale são profissionais fiéis ao fato, encontrando alguns espaços para apresentá-lo contrariando o poder identificado ou camuflado.

Salvo períodos de CPI, que todo mundo sabe de tudo exceto uma pessoa, não se tem notícias de tensão nos noticiários que chegam à população condicionada a ver os mesmos programas, assistir repeteco exaustivo de notícias sangrentas, manter votação recorde em reality shows com a volúpia de se achar participando quando é pertencido.

Fim de semana, em Porto Alegre. Encontro a cidade congestionada nas vias de saída para o litoral. Mãos de rua desviadas para segurança de políticos que comparecem ao casamento da filha de uma Ministra. Passeio pelo centro à procura de jornais do Rio e São Paulo, não encontro. O cheiro no ar continua e busco o motivo. Serão as invasões em diversos pontos do território nacional? Uma proprietária próxima a nossa cidade se vê impedida de entrar na estância, tinham desmanchado o mata-burro. Fico atenta a uma notícia breve na tv sobre declaração de um militar a respeito de reserva indígena na fronteira do norte do país. Riscos de livre acesso a guerrilheiros, tráfego de armas e narcotráfico. O Presidente faz advertência ao General. Manifestação de entidades em apoio ao General. Vou à internet e encontro editoriais de jornais do Rio e São Paulo que veiculam a respeito. O cheiro que me persegue tem fundamento. Não quero ver de novo, mas esse sentimento não pode ser explorado para usurparem a nossa capacidade de perceber intenções e ações em qualquer lado.

Para aliviar minha angústia, continuo a ler A liberdade fica longe, de Enéas Athanázio. Movimenta todos os sentidos convidando-nos a sentir o cenário que apresenta. Bom demais!



(26 de abril/2008)
CooJornal no 578

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br