
Uma aldeia, casas pequenas caiadas de branco:
Sagres, junto ao Cabo de São Vicente. A simplicidade do local
transmudou-se diante de mais um relógio do sol que encantam as terras
portuguesas. Levei-me ao passado, acompanhando as aulas de um professor de
geografia no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Tornava a disciplina
fascinante falando sobre o espaço territorial, as histórias de cada povo e
os corações que as interpretam.

Ficava imaginando os jovens estudantes na Escola de Sagres em pleno
inverno e o entusiasmo do Infante Dom Henrique (1394-1460). Sem terem
recursos tecnológicos, a imaginação traçava rotas, caíam ao mar, davam as
costas ao conhecido.
Dom Henrique não se limitou à riqueza de sua origem, dedicou a vida a
descobertas que só avançariam anos depois de sua morte. Fez sua parte,
atraindo para a Escola de Sagres intelectuais capazes de ensinar e
desenvolver projetos que atendessem aos objetivos. Para isso novos tipos
de navios e instrumentos náuticos.

Ao pisar no Cabo de São Vicente estalou desejo contido durante décadas. O
vento da região não deixava sossegar meus cabelos e emoções. O mar
castigando as rochas, avisando aos incautos que a vida exige bravos,
destemidos, capazes de olhar o mundo sem as limitações impostas pela
sociedade. Vi os olhos de Camões (1524-1580) poetando, no alto das
falésias: “ onde a terra acaba e o mar começa”. Saldando as conquistas de
Portugal em Os Lusíadas:
“...Por mares nunca dantes navegados/... Novo Reino, que tanto
sublimaram;/ ...Cantando espalharei por toda parte,/ Se a tanto me ajudar
o engenho e a arte...”
Ainda bem que, de tempos em tempos, surgem ícones que fazem as coisas
acontecerem, sem temer adversidades ou o desprezo de seus pares. Até Jesus
veio à Terra, não se deteve dependurando propagandas no céu.
(03 de maio/2008)
CooJornal no 579