Mãe, três vezes santa: na dor, na renúncia e no sacrifício. Frase
ressaltada numa escultura em Rio Grande. Não sei se ainda existe por lá,
mas ficou eternizada em minha memória.
Era o ano de 1970. A visão dessa escultura instigou-me rever a
responsabilidade de ter filhos. Quanto de mim daria para que eles
crescessem protegidos, nutridos em amor e normas que os tornassem
independentes? Não tinha noção, a referência era a dedicação de minha mãe,
com a figura do pai sempre presente, do seu jeito: provedor, parceiro nos
trabalhos domésticos, de jogar dama, dominó e banco imobiliário. Contador
de histórias, de causos da família, com inserções da mãe. Adorávamos
ouvi-los, enquanto ela servia a sopa. À noite, só de legumes, mais
apropriada, dizia. Vez por outra, quando corria um ar frio a la carioca,
era sopa “levanta defunto”, de feijão-manteiga, com risos e prosas. Hoje,
ela se refere a esta sopa como “levanta forças”, para não apressar a sua
hora.
Mãe que fazia meus vestidos, colocava-me sobre a mesa para acertar a barra
da saia godê. Mãe que tomava tabuada na mesa da cozinha, ensinava a fazer
bolo português, rabanada, carne assada, bolo de batata... Mãe que nas
férias aceitava encomenda de viandas para ter mais dinheiro e confeccionar
fantasia de nega maluca, borboleta, escrava, colombina, bate-bola... Mãe
que cuidava de tias doentes, sobrinhos, vizinho dementado... Mãe que
lutava por crianças carentes, abrigando-as, dando-lhes o melhor de si. Mãe
que se revelou compositora cantando a dor da saudade quando o amor partiu.
Minha mãe.
O
tempo passou, meus filhos nasceram, cresceram, já se multiplicaram. Acho
que alguma coisa acertei, não com tanta dor e sacrifício. Certa renúncia,
sim, a começar pelo sono interrompido. Foi o que me chamou mais atenção,
ainda que amenizado pelo cuidado paterno. Quando casaram, parecia ter
encerrado este capítulo até minha mãe vir morar conosco. O ciclo está
fechando. Esta semana, de madrugada, levantou-se e caiu. O estrondo ecoou
pela casa, corremos para socorrê-la... Ainda bem que foi mais o susto.
Emocionada, envolvi-a em meus braços, beijei seus cabelos brancos. Lembrei
de outras mães, desprotegidas.
Vejo-me no espelho
lembro aquelas que me antecederam
a
que surgiu de mim
as que me ajudam com amizade.
Ouso ir mais longe
sinto gemidos
daquelas que não conseguem
ver seus filhos crescer.
Queria meu peito
estender-lhes
um pouco de seiva
aos pequenos brotos
para não secarem ao nascer...
(10 de maio/2008)
CooJornal no 580