10/05/2008
Ano 11 - Número 580



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde




Às mães sem-nome

 

Mãe, três vezes santa: na dor, na renúncia e no sacrifício. Frase ressaltada numa escultura em Rio Grande. Não sei se ainda existe por lá, mas ficou eternizada em minha memória.

Era o ano de 1970. A visão dessa escultura instigou-me rever a responsabilidade de ter filhos. Quanto de mim daria para que eles crescessem protegidos, nutridos em amor e normas que os tornassem independentes? Não tinha noção, a referência era a dedicação de minha mãe, com a figura do pai sempre presente, do seu jeito: provedor, parceiro nos trabalhos domésticos, de jogar dama, dominó e banco imobiliário. Contador de histórias, de causos da família, com inserções da mãe. Adorávamos ouvi-los, enquanto ela servia a sopa. À noite, só de legumes, mais apropriada, dizia. Vez por outra, quando corria um ar frio a la carioca, era sopa “levanta defunto”, de feijão-manteiga, com risos e prosas. Hoje, ela se refere a esta sopa como “levanta forças”, para não apressar a sua hora.

Mãe que fazia meus vestidos, colocava-me sobre a mesa para acertar a barra da saia godê. Mãe que tomava tabuada na mesa da cozinha, ensinava a fazer bolo português, rabanada, carne assada, bolo de batata... Mãe que nas férias aceitava encomenda de viandas para ter mais dinheiro e confeccionar fantasia de nega maluca, borboleta, escrava, colombina, bate-bola... Mãe que cuidava de tias doentes, sobrinhos, vizinho dementado... Mãe que lutava por crianças carentes, abrigando-as, dando-lhes o melhor de si. Mãe que se revelou compositora cantando a dor da saudade quando o amor partiu. Minha mãe.

O tempo passou, meus filhos nasceram, cresceram, já se multiplicaram. Acho que alguma coisa acertei, não com tanta dor e sacrifício. Certa renúncia, sim, a começar pelo sono interrompido. Foi o que me chamou mais atenção, ainda que amenizado pelo cuidado paterno. Quando casaram, parecia ter encerrado este capítulo até minha mãe vir morar conosco. O ciclo está fechando. Esta semana, de madrugada, levantou-se e caiu. O estrondo ecoou pela casa, corremos para socorrê-la... Ainda bem que foi mais o susto. Emocionada, envolvi-a em meus braços, beijei seus cabelos brancos. Lembrei de outras mães, desprotegidas.

Vejo-me no espelho
lembro aquelas  que me antecederam
              a que surgiu de mim
              as que me ajudam com amizade.

Ouso ir mais longe
sinto gemidos
              daquelas que não conseguem
              ver seus filhos crescer. 

Queria meu peito estender-lhes
um pouco de seiva
              aos pequenos brotos
              para não secarem ao nascer...




(10 de maio/2008)
CooJornal no 580

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br