31/05/2008
Ano 11 - Número 583
SONIA ALCALDE
ARQUIVO
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Sonia
Alcalde
GATO AQUERENCIADO*
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A chuva não vai me impedir, ah, isso não vai. Tassiana grudava o nariz no
vidro da janela, e vasculhava com o olhar todas as possibilidades para
alcançar a rua. Era seu horário predileto. O horário de debruçar-se
daquela altura para ver Guabiru passar.
Riu do apelido, do tempo que corria atrás do galo de rinha disparado como
ambulância. Cuidado com ele, cuidado com o vizinho, repetia seu avô,
zeloso com seu investimento para as tardes de sábado. Até que um guri
franzino fez parelha com ela e não deu outra, brigou para valer. Meu galo,
não.
Passou a mão nos cabelos fartos, acariciando-os. Seu galo agora era outro,
mas dentro dela o mesmo jingle da infância, com pequena alteração: Cuidado
com ela, cuidado com a vizinha.
Pela sua cara, as lembranças exalavam fel. Que mulherzinha para incomodar.
Graúda, onde as tanajuras se destacam, cola o vestido de tal forma que não
há santo que não dê uma olhadinha. Na última feira, um guri não se conteve
e acertou os glúteos com tomate. Mas a danada rodopiou de tal maneira que
os marmanjos ficaram mais caídos.
O grito do telefone estremeceu o corpo miúdo de Tassiana. Fez muxoxo: bem
na hora. Correu, célere como lebre em dia de caça. Cantou o número do
telefone e do outro lado, nada. Desta vez, gritou: Pô, não vai responder?
E não respondeu, mas os ouvidos deviam ter arrebentado com a conclusão de
Tassiana.
Voltou para janela, de onde não queria ter saído nem um instante, e
murmurou, afogada: Ah, lá vem ele... que amor... olha para mim... dá um
adeusinho... um pouquinho só...
Seu galo ia vencendo o percurso, depois da briga do dia. A chuva
atrapalhava, mas não o impedia de avançar. Até que diante da janela de
Tassiana, parou, tirou o boné e fez “aquele” gesto nobre. Guabiru podia
correr, lutar, virar bicho com o chefe, mas com ela não. Manso que nem
gato aquerenciado. E Tassiana miou com as mãos para que ele pudesse sentir
seu calor, mesmo à distância. E pressentisse o ardor do próximo encontro.
*In “Seis Contistas de Bagé”, Ed. Metrópole, Porto
Alegre, 2004
(Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche)
(31 de maio/2008)
CooJornal no 583
Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
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