07/06/2008
Ano 11 - Número 584
SONIA ALCALDE
ARQUIVO
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Sonia
Alcalde
O Museu Dom Diogo (I)
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Será que estou tomando a decisão certa? Tassiana aconchegava-se junto à
Gua-biru, deitada na grama macia da Quinta da Boa Vista. Dali podiam
enxergar o Museu Nacional. Só duas vezes tinham entrado lá. Ele achava
monótono percorrer alas e mais alas vendo coisas velhas. Ela não. Tinha
sabor e cheiro da sua coleção de relógios. Combina-ram um meio termo.
A patroa tinha comunicado que o marido fora transferido para uma cidade
bem longe. Convidou-a para passar algum tempo com eles, assim conheceria
outra parte do Brasil. Mas Guabiru, o sol do Rio de Janeiro, as noitadas
na gafieira, eram opções muito fortes.
Ele parecia murcho, não emitia nenhum som deixando a algazarra das
crianças, o grito do pipoqueiro, do sorveteiro, falarem por si.
Tassiana afastou o braço de Guabiru, lentamente. Voltou-se séria. Fez um
carinho em seus lábios carnudos.
— Quero conhecer esse tal de pampas. Vou e volto dentro de seis meses —
disse com ternura e firmeza.
Ele mordeu os lábios, depois afrouxou-os.
— Tenho tanto medo da distância. É um fim de mundo.
Tassiana debruçou-se sobre ele, com palavras de garantia de fidelidade,
encerrando em beijos deslizantes pelo rosto e pescoço.
Poucos dias depois, um grito de satisfação marcou sua passada por Torres,
limite do Rio Grande do Sul pelo litoral. Algumas horas mais, a travessia
da ponte do Guaíba. Um rio-mar com braços abertos parecendo o Cristo
Redentor em repouso. Mas em toda a estada de Tassiana no Rio Grande, nada
iria superar a chegada em Bagé ao entardecer da primavera. Um vermelho
intenso penetrava a alameda de eucaliptos da avenida Visconde Ribeiro de
Magalhães. Notou alguns vazios, mas a soberba daqueles monumentos naturais
ficaram sendo a marca principal da cidade, anunciando imponente prédio
erigido numa elevação.
A boca de Tassiana explodiu em encantamento. Dona Abigail atendeu à
curiosidade:
— É o Museu Dom Diogo de Souza, prédio da Sociedade Portuguesa de
Beneficência. A construção foi iniciada em 1871. Aquele do Rio, que você
gosta tanto, era usado como residência dos reis no Brasil. Este é réplica,
na parte fronteiriça, da residência deles em Portugal, o Palácio Nacional
de Queluz.
— Em 1816, a moradia dos reis na Quinta da Boa Vista era fundada, e Bagé
só tinha cinco anos de existência — acrescentou “seu” Anselmo. — Aqui, os
índios charruas, guenoas e minuanos, estavam sendo dizimados pelos
portugueses. O que existiu nesta região durante muito tempo: casebres,
ranchos e lutas sangrentas. Esta terra foi adubada com sangue, é fronteira
— exclamou, exaltado, parando o veículo numa blitz de militares com armas
em punho, e um deles com prancheta na mão. Um carro estacionou na frente.
O militar pediu a carteira do motorista. Passou a examinar se o nome
constava numa lista, liberando-o a seguir, como fizeram com eles.
— Terás chance de visitar muitos lugares, Tassiana. Tudo é perto, bem
diferente do Rio — colocou “seu” Anselmo dando partida ao carro.
(continua...)
(31 de maio/2008)
CooJornal no 583
Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
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