14/06/2008
Ano 11 - Número 585



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


 

Sonia Alcalde




O Museu Dom Diogo (Final)

 

A chegada à nova casa, as arrumações da mudança, absorveram Tassiana por uma semana, mas, depois, mantinha o compromisso de conhecer os pampas. Seus passos já dominavam certos caminhos.

Durante os trabalhos domésticos, ouvia rádio e anotava as particularidades locais. Pai Nosso campeiro, que estranho! Recados para campanha e convites de enterro. Quanto à televisão, não conseguia entender como podiam ficar diante de chuviscos onde figuras apareciam fantasmagoricamente, destacou na primeira carta a Guabiru.

O quarto verde, com cerâmicas coloridas em tons vermelhos, assistia o olhar vago e sonhador de Tassiana. Tinha ouvido a lenda da lagoa da música que chorava pelos degolados da revolução de 1893, enquanto no Rio já tinha acontecido a Proclamação da República. Não entra na minha cabeça tamanha barbaridade, pensou, rindo em seguida porque já estava assimilando o palavreado dos gaúchos.

De repente, cheiro de zorrilho, bosta de vaca e mugidos repetidos ensurdeceram-na. Eram centenas de reses. Pousados sobre elas, pica-paus com seus topetes amarelos, tentando desvencilhar-se de laço vermelho nos pescoços. Não estavam num campo, e sim cercados por paredes majestosas no alto de um monte. O Museu Dom Diogo de Souza! — identificou alarmada.

Surge, então, um homem magro, rosto comprido, passando com dificuldade entre os animais. Dirige-se a um religioso, vestido de negro, com um cordão vermelho levando uma cruz peitoral, diante da escultura de São João de Deus.

— Estava cansado de te esperar, Áttila — reclamou, apresentando numa das mãos terço de caroços de oliveira e na outra, um anel com a imagem de São Sebastião.

— Queria viver um pouco mais, alcançar teus 89 anos, mas fiquei com um número de sorte, 77. Outros prosseguirão. Só não esperava encontrar este panorama, como se estivéssemos ainda no cerco de 93. Não conseguiste espantar os fantasmas com todo teu poder, Monsenhor Costábile?

— As paredes ainda estão impregnadas da energia daqueles tempos. Eles permanecem visitando suas peças doadas ao Museu. As reses vêm e vão, relembrando o horror da cidade sitiada. Muitos degolados da lagoa da música ainda não perdoaram a insanidade da guerra.

— E tu, que fazes aí, no canto da sala, perto de São Benedito, quem és?— disse Áttila para Tassiana que tremia que nem vara verde diante daquele quadro a la Picasso.

— Estou de passagem, volto para o Rio logo, não se preocupem, não contarei para ninguém o que vi, acho até que não estou vendo nada disto, é coisa da minha imaginação — metralhou Tassiana pensando conter a aproximação deles.

— Não queremos que silencies as lembranças desta região guerreira — interrompeu-a com seu ar professoral. — Defenderam nossa posição como entendiam na época. Tudo tem um preço, agüentavam as conseqüências. Não toleravam o descaso dos governantes, daí as rebeliões.

Monsenhor Costábile tomou cuidadosamente uma peça de tecido:
— Eis a Bandeira Farroupilha, cujo sentimento flutua nesses pagos.

De repente, o vento minuano mostra-se com ardor. Levanta a poeira do tempo. Escancara janelas e a porta principal, deixando entrar claridade sobre uma pedra lunar. Tassiana esbugalha os olhos.

— Até isto vocês têm por aqui?!

E charruas invadem a peça. Rostos tatuados com três linhas azuis e mandíbulas pintadas de branco. Começam a dançar, reverentes, em volta do pedaço da lua.

 

*In “Seis Contistas de Bagé”, Ed. Metrópole, Porto Alegre, 2004
(Oficina de Criação Literária Alcy Cheuiche)

(14 de junho/2008)
CooJornal no 585

 


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br

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