28/06/2008
Ano 11 - Número 587



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


Sonia Alcalde
em Expressão Poética

 


 

Sonia Alcalde




A voz do quintal

 

Caquizeiro no quintal da Sonia.

As folhas do caquizeiro despediam-se no fundo do quintal. Deitavam sobre a terra, vestidas de cor laranja, vibrante. Passei o outono admirando o ritual sem pesar, lembrando a pujança, sonhando com a primavera e o verão onde tudo se renova. Quando os frutos se engalanam com a mesma cor para as bicadas dos pássaros e o toque dos humanos. Este ano, meu marido experimentou congelar sua polpa, deu certo. Até agora ainda a saboreamos.

Tardei em escrever o texto aguardando o término deste ciclo. Queria falar das sensações de que era tomada, da platéia natural, perene, que assistia comigo, de camarote. Especialmente à tarde. A luz tornava tudo mais vivo. De repente, aconteceu o imprevisível. Sentada perto do caquizeiro, puxei uma revista. Diante de meus olhos, em sucessivas fotos o Mar de Aral, ou o que restou dele. Murchei.

Senhora, porque me olhas espantada? Já falaste com teu arroio Bagé? Aquele que anda por aí, cheio de entulhos, embretado, fininho em alguns trechos? Por que te admiras do meu caso se no teu quintal está acontecendo igual? E o Santa Maria de Dom Pedrito? Onde suas águas foram parar?

Senhora, estamos em colapso. Nós, mares e rios, fontes, cachoeiras, arroios, oceanos e igarapés secaremos nossos espaços indo para os ares. Precisamos de uma grande convenção. No céu. Apenas um dia. Poderão viver sem nós? Vamos nos encontrar para reavivar a memória. Eu, Aral de nascimento, falarei do passado e da minha decadência... Eu que fui o quarto maior lago do mundo... Dos bilhões que investem agora para recuperar um pedacinho...

Além de nos vermos minguados, nossos habitantes desaparecendo, as terras gritam por socorro, contaminadas. A minha ilha de Vozrozhdeniya que o diga. Antes, longe, no meio do mar, usada como área de testes de armas biológicas. Agora, suas terras se uniram ao continente e há risco que os organismos tenham sobrevivido e possam chegar às pessoas por meio de pulgas de roedores infectados. Sem gato por perto...

Tomada de angústia infinda pela voz da natureza, despertei do sonho louco. Ou não é?! Como seria meu quintal sem o caquizeiro, sem o sol que o faz brilhar renovando a esperança de outro ano voltar?



(28 de junho/2008)
CooJornal no 587


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm

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