09/05/2009
Ano 12 - Número 631



SONIA ALCALDE
ARQUIVO


Sonia Alcalde
em Expressão Poética

 


 

Sonia Alcalde



Às mães sem-nome (II)


 

Dia do aniversário do filho caçula. Longe e perto. A distância física os separa, mas as lembranças estão presentes, povoando sua mente, suas conversas. Assim passou doze horas, até falar com ele ao telefone. Quatro dias antes do dia das mães. Que ela diz não se importar, mas adora receber presentes, almoçar pelo menos com um dos filhos. Quem está perto, fica de representante. Para ouvir as inúmeras histórias, repetidas através dos anos, no realejo da saudade.

Cada vez sinto-me mais perto dela, afagando-a no declinar da vida, sorvendo sua imagem, as respostas na “bucha”, mostrando estilo e opinião. Dando a entender a todos que luta pela vida, ainda que tenha momentos de profunda tristeza. Porque mãe sofre quando vê um filho partir. Dor que fica para sempre, emoldurada. Não importa a idade do filho que se foi, se antes de nascer, ao vir ao mundo, se bebê, criança, adulto ou já entrando na terceira idade. Sempre é filho, o filho que saiu de dentro de si, que esteve tão perto e depois foi se afastando pela lei natural da vida.

Revejo no álbum de família as imagens das tias Iolanda e Maria da Glória. Colecionadores de “post mortem photos” já quiseram adquiri-las. Morreram aos seis meses de idade. Uma de coqueluche, a outra de sarampo. Ambas, um só retrato. Parece que estão dormindo. A vó encontrava sempre motivos para abrir o álbum e acariciar as filhinhas. Sentada ao seu lado, observava os mínimos gestos, as lágrimas dançando nos olhos azul-turquesa...

Diante dos monumentos aos mortos de guerra, das imagens dos desaparecidos de todos os tempos, mães choram e lutam, ouvem homenagens e justificativas. Quanta dor! Só as preces aliviam.

As ofertas de presentes nos diversos meios de comunicação sugerem o melhor para as mães, conforme o ramo de negócios. O que falar aos filhos desnutridos de mães ressequidas no alto sertão, em terras alagadas esperando por mãos que estendam um pedaço de pão? O que a mãe-terra gostaria de ganhar neste segundo domingo de maio?

Ouvi de alguém que o melhor é esquecer os dramas do mundo para se aproveitar. Fazer um bom churrasco ou bobó de galinha, chamar os familiares (porque todos têm mães) e juntos comemorar. Não vou deixar de festejar a data, mas também pedir a Deus por todas as mães sofredoras. Por todos os filhos que não têm as mães ao seu lado.
 


(09 de maio/2009)
CooJornal no 631


Sonia Alcalde,
escritora, poetisa
Autora do livro "Estações do Eu", entre outros.
Membro do Cultura Sul
Bagé, RS
alcalde@alternet.com.br
http://www.riototal.com.br/expressao-poetica/sonia_alcalde.htm


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