11/02/2006
Ano 9 - Número 463


 


 
Tania Melo

 

Cotidiano em preto e branco

 

 

Numa tarde fria, em que o céu de um tímido acinzentado combinava com a névoa que caía, também gris, as cores se escondiam.

Em meio a esta triste paisagem, a velha, vestindo andrajos, passava, arrastando os pés, como de costume.

Numa esquina, ao descer a calçada, tropeçou e caiu.

Todos a conheciam, mas ninguém sequer estendeu-lhe a mão.

Ergueu-se, com suas próprias e minguadas forças, enquanto gemia de dor. Encostou-se à parede, chorando, exclamando:

- Meu Deus, quanta injustiça!

Segurei-a pelo braço, tentando ajudá-la.

Deu-me um sorriso amargo e, com delicadeza, afastou minha mão:

- Pode deixar, filha, já estou acostumada. E se foi...

Fiquei ali, estática, sem ação, pensando sobre o fato, enquanto lágrimas rolavam pelo meu rosto, incontidas.

Por que motivo a vida seria, assim, tão impiedosa para com alguns e tão complacente e bondosa para com outros?

Existem explicações as mais diversas. Alguns, como os adeptos da auto-ajuda, afirmam, categoricamente, que tudo depende de nós. Que basta mentalizarmos e acreditarmos naquilo que desejamos, para que venha a acontecer e, quando questionados sobre esta diferença, respondem que a pessoa não ‘acreditou verdadeiramente’ que poderia alcançar. Pediu, mas não teve fé.

Reside aí, até, uma pequena lógica, pois sei que tudo aquilo que buscamos, com garra e pelo qual nos empenhamos, tem muito mais chance de vir a acontecer. Entretanto, o que dizer dessas pessoas que já nascem na miséria, passam a vida batalhando, tentando, pedindo e chegam à velhice, assim, tão desamparadas?

Será que podemos dizer que elas é que não quiseram ou não souberam chegar onde queriam? Uma conclusão simplista demais para um tema tão complexo.

Por isto, ao ver a pobre senhora afastando-se, tão desesperançada, meu peito se consumiu junto com o dela, repelindo qualquer explicação ‘lógica’ que minha mente pudesse pensar em apresentar-me, pois nada, para mim, poderia justificar tamanha ingratidão da vida para com aquela criaturinha indefesa.



(11 de fevereiro/2006)
CooJornal no 463


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br