18/02/2006
Ano 9 - Número 464


 
Arquivo
Tania Melo


- Cotidiano em preto e branco


 
Tania Melo

 

Mamãe de Gravata

 

 

Conversando com uma amiga, soube de sua frustração por não estar exercendo uma profissão que lhe trouxesse prazer, nem concluído os estudos.

O motivo? Pasmem: MEDO.

Medo? De enfrentar os riscos e buscar aquilo que, de verdade, a satisfaça? Difícil admitir que uma pessoa com mente de aparência tão aberta, pudesse ter esse tipo de sentimento perante uma chance de conquista e crescimento pessoal.

A resposta deixou-me preocupada, não apenas com relação ao seu caso, mas, por dar-me conta de que inúmeras outras situações, se não idênticas, pelo menos bastante parecidas, ocorrem a nossa volta.

Não deixa o trabalho que exerce, onde já está acomodada, mas não satisfeita, por medo de que os filhos, pequenos, sintam-se abandonados, pois, ao partir para um curso, ou um novo emprego, terá de reduzir o convívio com eles.

Entristeceu-me ouvir isso e, com toda a franqueza, disse-lhe o que penso a respeito.

Seus filhos, amanhã, quando já crescidos, irão dizer-lhe, ao saber dessa “opção” por sua exclusiva decisão, que ela cometeu um enorme erro. Jamais deveria ter aberto mão de tornar-se uma pessoa plenamente realizada, em função deles, pois são saudáveis, com um pai jovem, que concluiu os seus estudos enquanto ela assumia a enorme carga dupla: trabalho fora de casa somado aos encargos de mãe e responsabilidades domésticas.

Sem contar as vezes em que abriu mão de seus prazeres pessoais para ficar com as crianças, dando-lhes completa atenção, cuidando do jantar, esperando que o marido retornasse da faculdade e, numa seqüência, fosse, também, atendê-lo.

A mulher executa, atualmente, as mais variadas funções, muitas até que, há pouco tempo, eram tidas como exclusivamente masculinas, mas, enquanto junto a estas, monopolizar, também, as de mãe e administradora do lar, estará marcando um gol contra.

É fundamental que os casais dividam, racionalmente, tarefas como ir ao supermercado, cozinhar, lavar, dar assistência aos filhos nas tarefas escolares, bem como levá-los e apanhá-los na escola, para que aí, sim, exista um verdadeiro equilíbrio.

Alguns homens já entendem aceitam e desempenham tranquilamente, com extrema competência, tais trabalhos e, ainda, orgulhosos fazem disso assunto na roda de amigos mas ainda estamos muito longe do que seria o ideal.

Torço para que este percentual se amplie numa proporção geométrica, a fim de que este século possa ser visto e lembrado como aquele em que os filhos acompanharam seus pais executando, proporcionalmente, todas as responsabilidades que existem numa vida em comum, de maneira que eles, acostumados com isso em seu dia-a-dia, ajam de forma idêntica com seus pares, no futuro.



(18 de fevereiro/2006)
CooJornal no 464


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br