
25/02/2006
Ano 9 - Número 465

Arquivo
Tania Melo
- Cotidiano em preto e branco
- Mamãe de gravata
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Tania Melo
Cuidado com a rapadura
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Parada diante de uma grande loja, fui, repentinamente, abordada por uma
figura que, a princípio assustou-me, mas, que, minutos depois, percebi não
ser um marginal e passei a dar-lhe atenção, até porque o seu jeito de
falar e movimentos que fazia com as mãos aguçaram minha curiosidade.
Era um senhor, de idade indefinida, pobremente vestido, mas limpo, que
mostrava, sem parar, um folheto dos que são entregues às centenas, pelas
ruas. Disse que não havia compreendido nada do que estava escrito ali, e
me pediu ajuda.
Eu tinha dificuldades para compreender o que ele falava, mas, aos poucos,
fui entendendo que o assunto era sobre atendimento médico.
Li, então, o texto e vi que se tratava de Plano de Atendimento Dentário,
que é uma das últimas novidades enfiadas à força nas mãos das pessoas que
circulam pelo centro da cidade.
“Dentista, Dentista, extração, aparelho. Não paga nada, nem o aparelho”,
gritam, junto com “empréstimos para aposentados, compra de ouro, corte de
cabelo, colocação de ‘pircitatuage’( leia-se piercing e tatuagem)”, etc.
As informações que passam são as mais absurdas, tanto que este pobre
coitado havia entendido que eram serviços médicos gratuitos e queria, por
força, que eu lhe dissesse onde ficava o atendimento.
É a venda da ilusão, da mentira, quase agressão, onde o importante é
conquistar clientes, seja como for.
Expliquei-lhe, calmamente, que era tratamento para os dentes e, neste
instante me dei conta de não existir nenhum dos ditos cujos em sua boca.
“Ah, pra os dentes? Nem quero saber dessa porcaria. Não tenho mais nenhum.”
Eu tive que rir, e ele continuou:
“Estes aí são seus mesmo? Aí tem que cuidá, porque são bonito... mas eu
não.”
E seguiu:
“A moça come muito doce? Não pode! Eu tive que tirar os meus dentes porque
me criei comendo rapadura, daquelas de palha, sabe? A gente comia sem
parar, lá fora, onde eu morava”.
Da diabete me escapei, mas do ‘corrupiu’, não.”
“Corrupiu? Nunca ouvi falar.”
“Corrupiu, que dá nos dentes, e não tem dentista nenhum que cure. Os
dentes vão caindo tudo e não tem jeito, só arrancando e botando uma
‘chapa’”.
“Mas, então, o senhor não escovava os dentes depois de comer as
rapaduras?”
“Não adianta nada isso. O corrupiu, quando pega, não tem jeito mesmo. Só
tirando tudo”.
Mas a moça cuide bem dos seus, viu? E desta bolsa bonita aí, pro ladrão
não lhe roubar.”
E foi embora.
Fiquei ali, parada, pensando na desinformação do nosso povo, em geral. A
tal doença, deve ser a antiga e conhecida ‘piorréia’, infecção bacteriana
que se instala de mansinho, silenciosa e indolor. A falta de uma higiene
bucal perfeita, ou, pelo menos, básica é do que ela mais gosta. Prepara
aí, seu terreno, incha as gengivas, provoca sangramentos e, em grau mais
elevado, não sendo tratada, faz com que os dentes caiam, ou tenham que ser
extraídos.
Este coitado foi uma das tantas vítimas desta doença, conhecida, de onde
ele vinha, como o tal de ‘corrupiu'.
(25 de fevereiro/2006)
CooJornal no 465
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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