18/03/2006
Ano 9 - Número 468


 
Arquivo
Tania Melo


- Cotidiano em preto e branco
- Cuidado com a rapadura
- Mamãe de gravata


 
Tania Melo

 

 Cuidado. Criança a bordo

 

 

Meu pai pertencia à Marinha Brasileira. Era capitão de um navio.

Nunca tive medo de andar em barcos pelos rios da vida, mas ainda não havia me aventurado em mar aberto.

Aos nove anos, cheia de coragem, fui sua companheira numa viagem que, para mim, criança, encantou desde o instante em que iniciamos a fazer a mala.

Ao zarparmos, já fiquei maravilhada com os apitos, o recolhimento das cordas e da âncora e o ruído dos motores do barco.

Por dois dias seguidos fui obrigada a alimentar-me com coisas leves e muito suco de limão, para conseguir suportar. Sentia náuseas violentas. Com o passar do tempo, no entanto, fui acostumando ao balanço do barco sobre as ondas e já não sentia mais nada.

Permanecia sentada, por muitas horas, sobre um dos porões de carga, coberto por uma lona amarela, admirando, deslumbrada, as paisagens dos locais por onde o barco navegava.

Belíssimos! Mata, pássaros, muito verde, além do imenso mar a circundar-nos, enchendo de azul os nossos olhos.

Os marinheiros caçavam, atirando em marrecões, indo apanhá-los com um pequeno bote. Estes eram, em seguida, transformados em refeições pelo cozinheiro de bordo.

Tudo isso para mim, era uma enorme aventura.

Sentia-me uma desbravadora. Queria saber sobre tudo. Conhecer cada parte do navio, principalmente a casa de leme.

Além disso, minha arteirice era gritante e adorava aprontar com um e outro, aproveitando a folga que me era dada, devida à imensa atividade, o que não permitia ao meu pai "capitanear" o meu comportamento em tempo integral.

O que ele mais recomendava era para que eu não fizesse nenhum tipo de brincadeira com o seu contramestre, um senhor de meia-idade, evitando constrangê-lo.

Meus ouvidos e mente assimilaram a ordem, sim, mas às avessas.

Os rapazes prepararam uma espécie de cauda, com um gancho de arame seguido de corda desfiada e mandaram que eu pendurasse o artefato exatamente nas calças do "seu Antonio".

Muito calmamente, enquanto ele subia uma escada, enganchei-lhe o arame na roupa e o pobre homem não percebeu nada. Andava por todos os lugares com aquele objeto balançando. O navio era uma gargalhada só.

Não preciso dizer que fui recolhida ao camarote, onde escutei, calada, todas as palavras que meu pai pronunciava, olhando-me de modo muito sério e obrigando-me a um pedido de desculpas a ele e ao contramestre. Mas eu duvido que ele, bem lá no fundo, não tenha dado suas boas risadas, também.

Em outra ocasião, fui salva de ser sugada do barco por um milagre da Divina Providência.

Não sei por que cargas d’água resolvi lançar ao mar, um balde preso a uma corda, a fim de enchê-lo. Com a velocidade do navio, aquela vasilha cheia parecia mais um tubarão de quinhentos quilos. Eu, apavorada, não atinava a largá-la. Meu anjo da guarda, na pessoa do "seu Lulu", aproximou-se vagarosa e silenciosamente, segurando-me, firme, pela cintura. Com o impacto, soltei a corda e o mar levou-a, junto com o balde, em segundos.

Em cada porto, pelo menos um presentinho eu tinha que ganhar. Lembro de todos, especialmente de uma saia estampada com florzinhas cor-de-rosa e enfeitada com trancelins.

Ao retornar para casa, minha euforia era tamanha que me punha a relatar os acontecimentos, detalhadamente, dando um cansaço em qualquer pessoa que se dispusesse a ouvir-me.

Mostrava as fotos, falando sem parar. Encantada com tudo o que vira e fizera.

Só sei que esta história jamais se apagará de minha memória pois foram muitas as emoções pelas quais passei durante os quase vinte dias em que "fui comandante" de um imenso navio em alto mar.



(18 de março/2006)
CooJornal no 468


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br