
25/03/2006
Ano 9 - Número 469

Arquivo
Tania Melo
- Cotidiano em preto e branco
- Cuidado. Criança a bordo
- Cuidado com a rapadura
- Mamãe de gravata
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Tania Melo
Rota Alternativa
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Pensam que é fácil andar por estas estradinhas tortas que são a minha
vida?
Enganam-se. É difícil, à beça. Mas não tem jeito. O negócio é encarar ou
morrer.
Então, vamos lá! Um pé à frente, outro, ainda mais um pouco, e toca a
descer e subir barrancos, arrancar rosetas dos pés, porque o chinelo já se
foi há muito e os dedos estão que é uma chaga só, cobertos de calos e
bolhas.
Vou por aqui, pois, sendo o lado do coração, tenho menos chances de vir a
me perder, porque os seus batimentos são ouvidos a uma boa distância. O som
deste coitado está tão alto e acelerado que, independente dos motivos que
o tenham feito pulsar desse jeito maluco e fora do compasso normal, eu
agradeço aos céus nesse instante.
Mas, que coisa de louco! De repente surge um desvio. E agora? Aonde será
que isso vai dar? Não faço a menor idéia, mas vou em frente.
Um pouco mais adiante, dou-me conta de que já não ouço mais nada. Será que
perdi, definitivamente, o rumo? Começo a ficar assustado de verdade.Ah
espera. Eu tenho um mapa, aqui, no lado direito do meu cérebro. Guardei,
justamente, para uma situação desse tipo. Preciso ser racional! Sempre
tenho tendências a seguir pela esquerda, pelo lado mais perigoso, dominado
pelas emoções e, vocês sabem, estas são imprevisíveis.
Mas onde é que está, meu Deus? Não posso ter-me enganado. Estava aqui, bem
dobradinho. Arre. Achei! Xiiii... Não é por aqui, coisa nenhuma. Este
caminho sequer aparece no mapa. Ué? Como pode? Volto ao índice. Ali
consta: desvio obrigatório, para evitar desmoronamento.
Está, ou não está? Existe ou não existe o bendito desvio?
Até o mapa resolveu dar uma de misterioso, de difícil...
Mas eu não vou poder desistir. Ah, se pelo menos...
Pára, criatura, pára! Ou enfrentas, ou não. Acaba com essa lenga-lenga,
que já está cansando a todo mundo.
Minha vida é complicada demais e, assim, cada vez que tento achar uma
saída, mais me enrolo e me perco.
Deixa eu olhar de novo: é isso mesmo. Preciso seguir em frente, ainda que
esteja apavorado. Não tenho outra alternativa. Ficar parado aqui, só vai
fazer as coisas piorarem. Acabo morrendo sem ter nem tentado sair do lugar.
Aí sim, o vexame será completo, pois, além de todo mundo ficar sabendo que
a minha vida foi esta porcaria que é, ainda vão dizer que eu era medroso,
covarde e não arrisquei nada. Vai ser terrível. Nem pensar!
Dê no que der, o jeito é arriscar. Quem sabe, lá do outro lado não estará
me esperando.
Jogo fora o mapa e sigo a minha intuição.
(25 de março/2006)
CooJornal no 469
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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