01/04/2006
Ano 9 - Número 470


 
Arquivo
Tania Melo





 
Tania Melo

 

Alegria de uns poucos... Tristeza de milhões

 

 

 

Francamente, a decepção que toma conta dos brasileiros está escancarada. Nunca se viu tanta vergonha, tanto descalabro, como o que está aí, estampado, diariamente, em todos os meios de comunicação.

Basta ligar o rádio, a tv, consultar um site de notícias, ou um jornal, que estouram diante de nossos olhos as situações mais estapafúrdias, deixando-nos com a boca aberta, o queixo caído e a mente atordoada.

São dezenas de "novidades" diárias, como se fossem pipocas a pularem de uma panela sem tampa, espalhando-se por todos os lados, sem condições de serem contidas..

Ainda por cima, os escândalos são, agora, transmitidos ao vivo, diretamente do Senado, da Câmara dos Deputados, das Câmaras Municipais e Assembléias Estaduais.

Na semana que passou, tivemos que assistir a um quadro tão ridículo quanto deprimente da "dança da elefantinha". A deputada Ângela Guadagnin, teve a desfaçatez de, em plena madrugada, ao serem anunciados os votos que davam pela impunidade do Deputado João Magno, erguer seu corpanzil da cadeira e sair pela sala agitando os braços, requebrando os quadris e balançando as pernas numa mistura de funk da cachorra com incorporação de mãe-de-santo, em terreiro de umbanda.

Francamente, chegamos ao máximo! Seremos nós, povo, obrigados, além de todos os desvios, roubos abertos e desmentidos com a maior cara-de-pau, ainda ter de aplaudir a um espetáculo desse nível?

Essa senhora, médica, pediátrica, não se envergonha? Que pais levarão seus filhinhos para serem tratados em seu consultório? E o partido que a apóia, não vai fazer nada? Achou bonito?

Sou educadora, tive inúmeras turmas de alunos, de classe média baixa, onde poder-se-ia esperar comportamentos que não condissessem com o ambiente da sala de aula, desrespeitando os colegas, mas, em todos os anos durante os quais estive à frente desses jovens, jamais assisti a um desrespeito que sequer chegasse perto do que vi dentro da Câmara dos Deputados, ao vivo, para todo o Brasil. Que argumentos poderemos usar com esses adolescentes, ao tentarmos mostrar-lhes que não podem agir de forma desrespeitosa? Com que moral, iremos exigir-lhes um comportamento adequado, se nos mostram, ao vivo e a cores, uma cena como esta, vinda de uma representante do mais alto escalão político do país?

Nós, cidadãos brasileiros, somos, na verdade, meros espectadores de tudo o que se passa, impotentes, vendo o país ser espoliado, o deboche aberto contra qualquer regra, ou lei, e a impunidade sendo comemorada com esse tipo de atitude, vinda, ainda por cima, de uma mulher, denegrindo um trabalho de conquista de espaço que vem sendo alcançado a duras penas pelo sexo feminino.

Aqui no Rio Grande do Sul, tivemos, também, justo no Dia Internacional da Mulher, a invasão a uma empresa de celulose, por um grupo de mil e quinhentas pessoas, formado principalmente por mulheres, que destruiu, inteiramente, um trabalho que vinha sendo realizado e acompanhado há mais de quinze anos e, agora, como a fazer coro, vem este espetáculo vergonhoso e ridículo, filmado e espalhado por todos os cantos do país e, com toda a certeza, pelo exterior.

Esta senhora deveria ter sido retirada da sala, no mesmo instante, por seguranças presentes, por ordem do Presidente da mesa. Era o mínimo que se esperava para, pelo menos, demonstrar que havia, ainda, um resquício de respeito pelo povo que os elegeu e paga os seus vultosos salários. Mas, infelizmente, nada disso foi feito e, pelo que se vê, ela declara, simplesmente, que estava comemorando e declaração de inocência de um amigo...

Viva a República! Viva a democracia.




(01 de abril/2006)
CooJornal no 470


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br