
22/04/2006
Ano 9 - Número 473

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Tania Melo
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Tania Melo
Anjo encapetado?
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Quando eu tinha seis anos, na escola, a irmã superiora entrou na sala
perguntando quem gostaria de ser “anjinho” na coroação de Nossa Senhora.
Era um espetáculo lindíssimo. A imagem da Virgem, num altar todo
enfeitado, sem a coroa e sem a palma que carregava nas mãos.
Um grupo de anjinhos entrava, formando um semicírculo, cantando músicas
muito bem ensaiadas, acompanhadas pelo órgão.
Uma menina maior entrava e, num solo, entoava uma canção da qual não me
esqueço até hoje, porque sua voz me encantava. Parecia vir do céu,
verdadeiramente.
A letra da canção dizia: “Em tuas mãos floresça, esta palma da vitória.
Neste altar resplandeça, ó minha mãe, a tua glória”
Enquanto cantava, colocava a palma nas mãos da Virgem.
Belíssimo! Esta é a palavra que posso usar para descrever aquele instante
aos meus olhos de criança tão pequena, feliz por fazer parte do coro de
anjos que homenageavam à Maria.
Mais um solo, onde a canção falava da coroa que, neste momento, era
devolvida à imagem.
Após, o coro de anjinhos encerrava, cantando e fazendo gestos de entrega e
agradecimentos.
A cerimônia marcou-me de tal forma, que até hoje não esqueço dos detalhes,
vozes, cânticos e rostos.
Minha roupa era linda. Toda de organdi suíço, branco, com as asas (feitas
seguindo um molde que era enviado para todos, para que fossem uniformes,
no modelo e tamanho).
No ano seguinte, novamente a pergunta em sala de aula. Eu, encantada,
levantei, rapidamente, a mão. Imagina! Repetir tudo! Seria o máximo!
Qual não foi a minha surpresa quando a irmã, em voz alta, diante de todos
os meus coleguinhas, respondeu, olhando para mim:
“Tu não! Tu fizeste fiasco! Foste com as asas viradas!”
Senti como se tivesse levado um tapa no rosto.
Imaginem uma criança, com sete anos, cheia de felicidade, ser humilhada
desta forma na frente de todos os amiguinhos.
Perguntei a ela: “Como assim, irmã?”.
Só então ela me disse (um ano depois) que as asas deveriam ter sido presas
nos ombros, ficando com as pontas para baixo, enquanto que as minhas foram
costuradas na cintura, abrindo-se para cima, como inúmeras imagens de
anjos vistas nas igrejas e fotos.
Conclusão: Fui podada! Não pude participar do coro que homenagearia à
Virgem, porque eu era um “anjo capeta”.
Já que minhas asas estavam ao contrário, diferente das demais, não
competia a ela, como coordenadora, chamar-me, ou a meus pais, antes de a
cerimônia começar e pedir para “desvirar” as benditas asas?
Além do quê, quem percebeu isso? Que diferença fez?
Já perdoei àquela ignorância que ouvi da freira. Era uma infeliz, talvez
frustrada por estar ali, pois, na realidade, tratava mal a muitas crianças
e era grosseira com vários pais, mas, por muitos anos, carreguei comigo a
tristeza e mágoa por não poder estar novamente lá, junto com os outros
anjinhos, no altar. E as palavras dela não saíam da minha cabecinha.
Hoje, entretanto, concluo que minhas asas não estavam viradas, coisa
nenhuma! Eu já me preparava para alçar vôos pela vida a fora. Grandes
sonhos. Grandes projetos. Nada de asas para baixo, quieta, esperando pelos
fatos, parada, a esmo. Negativo!
Parabéns aos meus pais, que também tiveram esta visão. Obrigada, Virgem
Maria. Eu fui um anjo especial no teu coro. Deves ter ficado muito feliz
quando me viste lá, naquele dia, cantando a plenos pulmões, bem como
agora, quando me vês aqui, voando em busca do que pretendo alcançar.
(22 de abril/2006)
CooJornal no 473
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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