29/04/2006
Ano 9 - Número 474


 
Arquivo
 Tania Melo


 
Tania Melo




Medo, quem é você?

 

 

Por que sentimos medo? O que é, afinal, este sentimento que atormenta aos seres humanos desde sua mais tenra idade até o último de seus dias?

Não há quem possa levantar a mão e afirmar, verdadeiramente, que jamais temeu nada..

Sempre tentamos disfarçar os nossos sentimentos de fraqueza. Mas, na realidade, sabemos o quanto eles nos abalam e nos prejudicam.

Meu irmão me assustava muito. Imitava seres violentos de filmes, de novelas, etc. Eu era a sua vítima favorita. Vivia apavorada.

Em criança, meus medos eram de monstros, hoje em dia, são de seres humanos

Ao meu ver, as coisas pioraram, e muito.

Segundo o dicionário, a palavra medo é definida como “sentimento imaginário de ameaça, pavor, temor-receio”.

Existem as situações de perigo real, e diante dessas funciona o nosso instinto de preservação. Conseguimos triplicar nossa capacidade de força e a sobrevivência torna-se o fator principal.

Quem nunca ouviu contar sobre mulheres frágeis que, ao verem um filho em perigo iminente, adquirem a força de um super-homem, conseguindo erguer um enorme bloco de pedra, ou um carro sob o qual esteja preso o corpo da criança?

Temos, entretanto, inúmeros medos que nos vêm do imaginário. O castigo divino, ainda que conscientemente o neguemos é um dos grandes temores da humanidade.

Crescemos ouvindo frases do tipo: "Criança desobediente, Papai do Céu castiga".

Esse tipo de mensagem, ouvida em fase de formação da personalidade, fica gravada no subconsciente e nos faz, mesmo depois de adultos, a viver sob este estigma, deixar de executar tudo o que poderíamos. Bloqueados por nossos medos de infância, tornamo-nos adultos incompletos.

O maior temor do homem, entretanto, o mais arraigado, é o da morte.

Aqueles que acreditam na reencarnação, dizem que essa imagem de sofrimento associada à morte, vem de ligações entre as diversas vezes que já partimos, tendo algumas delas ocorrido de forma violenta, deixando marcas em nosso subconsciente, que nos acompanhariam por todas as existências, na forma de medos imaginários, muitas vezes, completamente sem sentido.

Existem também os medos que nos foram passados pelo contexto social.

Desde pequenos nos vemos submetidos a várias situações, a partir da família, que nos fazem “dançar conforme a música”.

Os pais querem um filho doutor, mas ele gostaria de ser artista. Por medo de estar errado e não suportar as críticas, ele cede e abandona o que desejaria fazer.

Numa superproteção os pais também demonstram seus medos: de perder os filhotes, de ficarem sozinhos. Têm pavor à síndrome do “ninho vazio”. Cerceiam a liberdade em nome do amor.

Então nos enchemos de culpas, achamo-nos impotentes diante de várias situações e perdemos tanta coisa boa que poderíamos realizar se não fôssemos dominados por este sentimento.

Medo e felicidade não se coadunam. É necessário que nos demos conta disso e passemos a reagir contra esses embotamentos provocados por inseguranças imaginárias.

Olhemos de frente para os nossos medos. Encaremos um a um estes monstrinhos e veremos que, na verdade, não passam de fantasias mentais negativas. Eliminando-os, gradativamente, conseguiremos ser muito mais felizes.

Afinal, acho que merecemos, não é mesmo?




(29 de abril/2006)
CooJornal no 474


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br