
13/05/2006
Ano 9 - Número 476

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Tania Melo
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Tania Melo
"Lasciate ogni spranta,voi ch'entrate"
(Deixai qualquer esperança vós que entrais)
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(Crônica inspirada no tema sugerido esta semana,
na Oficina dos Escritores, pelo colega Marcelo D’Ávila)
O título é a citação encontrada na porta do inferno, em a Divina Comédia,
de Dante.
Soa como uma afirmação para aqueles que se desesperam, que não acreditam e
se entregam.
Para muitos o inferno existe, tal qual citado na Bíblia, como um lugar
onde as almas irão penar por toda a eternidade, numa punição por “pecados”
cometidos aqui na terra.
Na minha visão, entretanto, acho que ele se instaura em nosso interior, no
momento em que perdemos as nossas esperanças. Deixamos de crer em nossas
possibilidades. Nós mesmos nos condenamos e nos punimos.
A mente faz o trabalho de acusador e encarrega-se de não nos deixar
esquecer algum erro cometido. Aí sobrevém a culpa e para nos julgarmos
merecedores de sofrimentos e desesperançados, é um pequeno espaço.
Confundimos as coisas. Se desejamos algo e aquilo não acontece exatamente
como pensávamos, surge a tristeza e a frustração. Por que motivo não
recebi o que pedi?
Não podemos, entretanto, misturar tudo. Nem todo o pequeno desejo não
realizado significa que “nossa esperança foi vã”.
Vejo este sentimento como algo mais intenso, apesar de interligado aos
desejos, sim. Mas a desejos maiores, de coisas fundamentais e decisivas
para a nossa existência. Que nos tornem melhores. Mais completos.
É que, por vezes, somos acostumados a dar mais peso ao que não alcançamos
do que verdadeiramente enxergar tudo de bom que já conseguimos conquistar.
O dia a dia nos parece tão igual que só nos apercebemos de que algo mudou,
de que nossa vida está melhor, quando acontece algo bombástico, que altera
significativamente o rumo dos fatos a que estamos acostumados. Fica
difícil ver algo novo em meio à mesmice. Mas conseguimos. Basta querermos,
lutarmos para tal.
Quantas vezes não desejamos voltar para a cama e cobrir-nos até a cabeça,
para acordar somente depois que aquele problema desaparecer, que aquela
tristeza sumir de nosso peito?
Não resolve nada dar uma de avestruz. Temos capacidade de auto-renovação.
A esperança nos salva. Lutando contra esses negativismos, acharemos a
saída, por mais escondida que esteja. E ela será preciosa.
Na tristeza do que ainda se espera, mais uma vez reside a certeza do que
virá. A isso eu chamo de verdadeira esperança.
Para ela, só existe o ir além. Ignora o que nos acontece de novo, aquilo
que já encontramos. De forma cíclica, nos impulsiona na busca de outras
realizações. É uma renovação constante.
Já li em algum lugar ‘que estamos separados da felicidade por um "se" e
este "se" recebe um nome: Esperança.’
(13 de maio/2006)
CooJornal no 476
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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