
20/05/2006
Ano 9 - Número 477

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Tania Melo
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Tania Melo
Boneco de Piche |
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Você está naquele regime ! Cuidando da forma! Feliz com seus quilinhos a
menos e nada no mundo fará com que você cometa o pecado da gula. Mas não
deixa de sair com seus amigos, comparecer a jantares e festas. Afinal,
emagrecer é apenas um de seus objetivos e de que lhe adiantará ficar
linda, divina, maravilhosa e não mostrar pra ninguém? Não ser elogiada?
Então, lá estão você e seus amigos, reunidos, em torno de uma bela mesa,
naquele gostoso restaurante, onde tudo é alegria e diversão. Afinal, são
todos maravilhosos.
Todos?
Bem... quase todos.
Por que diabos aquela xarope foi sentar bem do seu lado, não é mesmo? Com
tanto lugar... Acho que escolheu de propósito só pra lhe infernizar.
Engraçada, cheia de encantos, ‘sem nenhuma maldade’, de repente, ataca e
fere você.
Ela é brilhante, sabe de tantas fofocas, novidades. Então, você chega a
pensar que, talvez, tenha prevenção contra a ‘pobrezinha’, assim, de
graça.
O pior é que existem homens, iguaizinhos. Que terror!
Já não fica à vontade, porque sabe que, a qualquer minuto, a bandida
poderá destilar o veneninho que guarda, por enquanto, na sua linda
boquinha, tão sorridente e com dentes tão perfeitos que nem dá pra
perceber a ampola presa aos caninos.
Dito e feito!
À chegada de cada novo prato, ela interrompe o papo e aponta pro seu, com
mil gestos, fazendo questão de que todos vejam que você NÃO está comendo
aquela delícia.
“Meu Deus, como pode? Passar este canelone, menina! É de ricota. Não vai
lhe acrescentar nem um grama”.
“Ai, garanto que não vai querer este tortelini maravilhoso! Garanto!”.
Só faltava ter trazido um alto-falante e anunciar pro restaurante todo,
porque na sua mesa e nas que ficam próximas, não resta a menor dúvida de
que todos estão ouvindo.
Você se sente a última. Louca pra dizer um monte, ou levantar dali e sair
disparando pro banheiro.
Entretanto, respira fundo, sorri e deixa pra lá.
Ela, não satisfeita, crava-lhe definitivamente, os dentes:
“Ai, sabem, eu como de tudo e não engordo nadinha. Não consigo entender
esses sacrifícios”
Mais uma respirada profunda, mais um sorriso e a sua mente lembra do que
ouviu, ainda ontem, na sessão de terapia: “É como tratar com um boneco de
piche. Ao ser atingida, você tenta revidar, aplicando-lhe um soco no peito
e percebe que só consegue afundar seus braços numa meleca preta e quente.
Acaba toda suja”.
“Adoro gente que COME, de verdade”.
“E eu sou apaixonada por pessoas que não se metem onde não são chamadas,
dando palpites no físico dos outros”, adoraria gritar-lhe na cara. Mas
sabe muito bem que é justamente o que ela está esperando. Que você perca o
controle.
Então, como terá de passar a noite inteira com uma sujeitinha deste tipo,
age exatamente ao inverso, pois a doçura é a única coisa com a qual ela
não conta e não consegue suportar.
Você ri por dentro da cara da infeliz e até lhe dá um beijo de boa-noite
quando sai da festa.
(20 de maio/2006)
CooJornal no 477
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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