
17/06/2006
Ano 9 - Número 481

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Tania Melo
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Tania Melo
Desculpe, eu me enganei
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Estas quatro palavrinhas não são as mais bonitas da língua portuguesa, mas
estão bastante próximas disso.
Quantas vezes bastariam que elas fossem expressas para que as coisas se
tornassem simples, sem problemas maiores e discussões desnecessárias.
Levo uma roupa à lavanderia e ela retorna manchada. Em vez de assumir que
houve um erro lá, o proprietário, ou funcionário insiste em dizer que já
recebeu a peça assim, ou que o tecido é que não podia ter sido lavado em
máquina (mas ele, como profissional, não sabia disso?).
Peço um filé mal passado e recebo quase torrado. Quando reclamo e comento
o engano, me olham como se eu estivesse maluca.
O motorista da lotação não pára no ponto onde pedi e me diz: "A senhora
não avisou", sendo que eu deixei bem claro que desejava descer na esquina
da Rua Duque de Caxias com a Bento Martins.
Nas corridas, por vezes, os taxistas fazem caminhos que não têm nada a ver
com o que a gente pediu ao entrar no carro e, quando falamos sobre seu
engano, só nos apontam o taxímetro e respondem com um olhar quase
enfurecido que este era o roteiro mais curto(ainda que este 'curto' tenha
nos custado o dobro do valor que sempre pagamos).
O que mais me irrita, entre todos esses, são aqueles que afirmam algo para
a gente, em particular e, quando o assunto vem a público, o negam,
veementemente.
Conheço uma pessoa (aliás, mais de uma, mas esta se destaca) que é dona de
fazer isso. Sempre que eu o citava em alguma reunião, dizendo: "O senhor
Fulano de Tal estava lá e concorda comigo", ou, "...e disse tal e tal
coisa", podia ter certeza de que ele saltava e dizia que não falara nada
daquilo, se achasse que poderia não estar de acordo com o pensamento da
maioria.
Ele jamais erra. Ele tem parentes que sabem de tudo, que entendem de todos
os assuntos e nunca se engana.
Este tipo de pessoa desconhece a beleza destas quatro palavras acima. Não
aprendeu a usá-las. Jamais conseguirá assumir um engano. Isso faria com
que se sentisse inferior, envergonhado. Então prefere "enrolar" e passar a
"bola" adiante
Que tolice! Marcaria muitos pontos se admitisse que errou, sem irritar-se
ou sentir-se humilhado. É uma tremenda bobagem.
Já é bem ruim ter cometido um erro, pior ainda é tentar fazer a outra
pessoa passar por boba, imputando-lhe a culpa.
Encontramos este tipo de pessoa por toda a parte: no trabalho, pelas ruas,
em estabelecimentos comerciais, entre os amigos e, até mesmo, em nossa
casa. Não consegue dizer, de uma forma simples: "Eu me enganei, desculpe"!
Que tal começarmos por nós mesmos?
Na próxima vez em que cometermos algo do gênero, digamos, de coração
aberto: "Cometi um engano. Peço muitas desculpas... o erro foi meu".
Garanto que nos sentiremos muito melhores do que tentar ficando arranjar
algum "culpado", jogando sobre outros ombros aquilo que nós fizemos de
errado.
Quando fazemos algo de bom, não adoramos ser elogiados? Num caso assim,
tentamos empurrar os elogios para outros? Muito raramente.
Então, façamos o mesmo também no inverso. Nós ficaremos bem mais leves e
as pessoas entenderão, pois todos se enganam. Já existe o velho ditado que
diz "Errar é humano, mas persistir no erro é burrice". Clichê? Pode ser,
mas perfeito e muito verdadeiro.
(17 de junho/2006)
CooJornal no 481
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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