01/07/2006
Ano 9 - Número 483


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Vozes da infância

 

 

Por um motivo não muito feliz, lá estava eu, na minha terra natal, no interior do Rio Grande.

A irmã mais velha de minha mãe havia falecido.

Naquele clima triste, acontecia, também, o reencontro de pessoas que não se viam há muito. Ficamos reunidos durante quase todo o dia e, à noite, os que não moravam na cidade foram para casa dos parentes que lá residem em grande número.

Minha mãe e eu ficamos na casa da tia Elzira. Lá, voltei a dormir no mesmo quarto em que passava minhas férias na infância.

Adorava ficar naquela casa. Até o cheiro ainda permanecia o mesmo. Que delícia! Cheiro de alegria, de brincadeiras, de coisas que não voltam, mas que não se apagam da memória.

É um sobrado grande e antigo, num terreno alto, de onde se avista uma grande extensão do rio Jacuí e muito verde.

Viajei no tempo.

Quando crianças, descíamos pela lateral da casa, por um caminho de terra batida e cascalhos, chegando até lá em baixo em segundos.Que festa!

Ficávamos andando pela beira do rio, jogando pedrinhas na água, arriscando passeios nos barcos (os famosos caíques movidos a remo, ou por pequenos motorzinhos na popa, acompanhadas por pessoas do lugar).

Cheguei a ver a figura da minha tia na janela, no seu gesto costumeiro de todas as tardes, acenando para que a gente subisse, pois era hora do lanche.

Outra delícia! Na mesa, um enorme tacho de pastéis fresquinhos, feitinhos na hora e café fumegante no bule.

Cacau, meu primo, tinha um quarto imenso, repleto de brinquedos e revistinhas infantis, que enchiam os olhos de qualquer criança.

Chegava a passar um mês por lá. Durante o dia até visitava outros parentes, mas, à noite, vinha para o quarto de hóspedes que me esperava, cheiroso, com a cama prontinha para uma bela noite de sono, depois de todas as estripulias do dia.

Lembro do galo que cantava, como se houvesse sido programado, fielmente, às seis horas da manhã.

Aquilo era vida. Lazer, alegria. Nada nos entristecia.

Pois ele voltou a cantar, naquele dia, no mesmo horário, como se nunca tivesse deixado de fazê-lo.

A voz da tia Elzira e o cantar do galo, cedinho, têm o som da minha infância. Jamais deixarão de ter.

Quando ela nos chamou para o café, me enrosquei nas cobertas e virei criança outra vez.

Obrigada, amada tia, por ter-me feito tão feliz no ontem e permitido que, no hoje, eu pudesse rever o filme inteirinho, completamente sem cortes, num remake acrescido de saudade.

 


(01 de julho/2006)
CooJornal no 483


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br