15/07/2006
Ano 9 - Número 485


 
Arquivo
 Tania Melo


 
Tania Melo
 


As falas de Ziminha


 

 

Quando adolescente eu tinha muitas amigas. A casa vivia cheia de gente.

Na hora de nos arrumarmos para as festas, então, era um Deus nos acuda na disputa do melhor espelho da casa, que ficava, justamente, na porta do guarda-roupas da D.Vilma, nossa empregada.

Minhas amigas e eu, levávamos horas a experimentar todo o tipo de roupa, cabelos e maquiagem. Era divertido à beça.

D. Vilma (Ziminha, como a chamávamos), sempre dormia tarde, pois adorava todas as novelas na tv, mas podia contar que nos dias em que nós estávamos lá a nos divertir, ela ficava rondando a porta do quarto a resmungar e a dizer que estava louca de sono e precisava dormir, pois tinha de levantar cedo.

Era pura implicância.

Não que fosse má. Pelo contrário. Era até muito divertida e boa companheira, mas acho que tinha ciúmes do quarto, pois tirávamos a sua privacidade.

Mas nós nem dávamos bola pros seus resmungos. Seguíamos no troca-troca até decidirmos, realmente, como cada uma iria sair de casa.

Algumas vezes nos reuníamos para fazer a ‘brincadeira do copo’, onde se colocavam as letras do alfabeto em círculo, além da palavra SIM e NÃO. Todas mentalizavam e colocavam o dedo indicador sobre o copo que ficava no centro da mesa, de boca para baixo e fazíamos perguntas e mais perguntas sobre namorados, com quem íamos nos encontrar, etc. O copo deslizava sobre a mesa, de uma maneira incrível. Até hoje me questiono se era poder mental, ou algum ser do outro mundo.

Pra quê. A Ziminha era espírita e ficava indócil. Bastava nos reunirmos pra tal brincadeira e ela já começava a passar mal.

Ia pra cá e pra lá, reclamando, sem parar, pra minha mãe: “Essas gurias ficam fazendo isso aí e me dá uns ‘fluídos tão ruins’ (o r era pronunciado com o mesmo som que apresenta em gurias e fluidos era fluídos, mesmo)”.

Coitada! Fazíamos de propósito, só pra incomodar! Ríamos até não querer mais e adorávamos escutar a dita frase que era sempre a mesma.

Na minha formatura do segundo grau, fizemos uma festinha em casa, depois da cerimônia. Pra lá vieram muitas das colegas de escola e o resto da turma de sempre, bem como os professores e amigos.

Nesta noite a Ziminha não teve sono. Ficou até tarde na festa, se deliciando com os doces, salgadinhos e contando sobre nossas proezas.

‘E aí, Ziminha, não vais dormir? Amanhã tens que acordar cedo’, dizíamos a toda hora pra ela. Lá vinha mais uma das frases que nos divertiam:

‘Que gurias bem sever...’ (jamais pronunciava a palavra sem vergonhas por inteiro, era sempre assim).

Também fazia o pagamento de um Montepio para complementar a aposentadoria e lascava mais uma:

‘Hoje é dia de pagar o Pio’

Tenho saudades dela, muitas vezes. Relembro seu cabelo grisalho, nariz abatatado, pele clara e os ombros curvados, numa escoliose terrível, se vestindo pra ir ao culto e levando séculos pra voltar pra casa, pois conversava meia-hora com cada um que encontrava pela rua.

Era como se fosse da família. Com a nossa mudança, perdemos contato com ela. Nunca mais a vi. Provavelmente já tenha partido e continue freqüentando o culto lá em cima.

Será que ainda sente ‘fluídos ruins’? Que figura ! Beijos, Ziminha!
 

 


(15 de julho/2006)
CooJornal no 485


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br