05/08/2006
Ano 10 - Número 488


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Os contrastes da minha cidade



 

 

Porto Alegre é linda! Mas como toda grande cidade é cheia de contrastes que nos fazem, ora rir, ora pasmar, ora correr, ora chorar...

No dia de hoje, andando por suas ruas, mais uma vez encantei-me com o visual dos prédios, que se estendem ao longo da avenida, imponentes, formando uma linha côncava, conforme a vista se estende à distância.

Ela me recebe com amor, pois, logo ao descer do metrô, no Largo Glênio Peres (pra quem não conhece, fica ao lado do Mercado Público) um violino enche o ar e o céu azul deste dia muito frio, com uma melodia belíssima.

Uma pequena multidão acompanha o espetáculo gratuito, digno de qualquer palco e das platéias mais requintadas. Que presente!

Pode parecer coisa de bairrista, mas, como se houvesse sido programado, o show completa-se com uma revoada de pombos por sobre a praça, num contraste de cores entre o céu, as aves e os amarelos guarda-sóis dos vendedores ambulantes que lotam o local.

Mais adiante, um palhaço, sobre pernas de pau, atravessa a rua para lá e para cá, ao som da música vinda de uma loja de eletrodomésticos, chamando a atenção de todos e levando aquele buzinaço dos carros e taxistas. Novamente sons e cores a se misturarem. A roupa que ele veste é um verdadeiro arco-íris. O mais engraçado é se ver como dança em cima das enormes pernas postiças, sem medo algum.

Próximo às bancas das floristas, dois rapazes divulgando que “ESTÁ CHEGANDO O DIA A”. Um, vestido de branco, carregando uma tabuleta com a frase escrita e falando, ao mesmo tempo, parecendo um pregador religioso. O outro, com uma placa na frente e outra nas costas, seguras por tiras nos ombros, fazendo o mesmo.

Todos perguntam: “O que é o dia A?” E eles seguem com o refrão.

Acho que deve ser algum lançamento. Não me perguntem de quê. Pode ser de uma revista, jornal, loja... Mas está dando certo o marketing que eles bolaram. Bem chamativo e barato.

Imediatamente, de dentro de uma das banquinhas, mais sons. De briga. Uma mulher gritava: “Não precisa me jogar na cara o que fez. Se era pra fazer e depois ficar alegando, não precisava ter feito”.

“CD, DVD, CD, DVD, os últimos lançamentos: O Código da Vinci, testamos na hora”. Enormes araras com estes equipamentos piratas e coloridos, que somem, repentinamente, para surgirem em outro ponto mais adiante, como em viagem no mar de asfalto, fugindo da fiscalização.

E as vitrines repletas de sapatos, bolsas, roupas, ofertas coloridas e tentadoras, mas silenciosas.

“Paga um real e ganha um milhão. A sorte está aqui na minha mão”, grita o cego, vendendo a mega-sena, vestindo cores sóbrias, parado à esquina.

Entro na confeitaria e uma profusão de cores, sons e aromas se misturam e saltam aos meus olhos e ouvidos. Cada doce e cada torta mais linda e colorida, provocando salivação só de imaginar o sabor.

Faço o pedido e, enquanto saboreio os pastéis suíços, cobertos de açúcar de confeiteiro, misturando o dourado com o branco, ouço as conversas das diversas mesinhas que me cercam.

Os sons, cores e sabores são intermináveis.

Despeço-me de Porto Alegre ao embarcar novamente no metrô. Por algumas estações ainda desfrutarei da beleza do Guaíba, do aeroporto e, depois, tristemente, a deixarei para trás.

Para mim, este é um espetáculo que VALE A PENA VER DE NOVO.

 


(05 de agosto/2006)
CooJornal no 488


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br