
19/08/2006
Ano 10 - Número 490

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Tania Melo
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Tania Melo
Reencontro
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Anoitecia. A chuva, como um pranto, batia continuamente na vidraça,
lembrando o som daquela música que havia embalado seu lindo sonho de amor.
Quanta saudade! Ele havia partido há tanto tempo que nem cabia mais no
calendário.
Seu coração, acostumado às tristezas e às melancolias, acreditava que a
chuva, caindo, lavando tudo, poderia fazer o mesmo com sua alma,
deixando-a limpa, despida dessa dor que a maltratava tanto, sem piedade
alguma.
Sentia algo estranho aquela noite. Ela trazia lembranças doloridas, mas
gostosas de sentir.
A foto sobre a cabeceira falava de coisas que ficaram no passado e que, no
entanto, não a deixavam por um minuto sequer, mesmo depois de tantos anos.
Como num filme, as cenas vinham a sua mente. O sonho, o amor, ai, tão
imenso. A paixão que fazia tremer-lhe o corpo inteiro apenas com as
delícias que ele sussurrava ao seu ouvido. O fogo abrasador que os
incendiava quando se entregavam um ao outro, e a delícia do repouso em
seus braços, enfim, saciados.
Ao partir, levara junto sua alma. Deixara aqui tão somente um corpo que
vagava, tentando sobreviver.
No jardim, uma roseira, totalmente coberta pelo vermelho de suas flores.
Assim como ela, ferida pela saudade, era um fantasma em vida, machucadas
pela chuva, as belas e perfumadas rosas desfolhavam-se e morriam pelo
chão.
Parceiras no amor e sofrimento.
Chorou.
Abriu a janela deixando a água gelada ferir-lhe o rosto, violenta,
encharcando-lhe os cabelos, a roupa e misturando-se às lágrimas quentes
que rolavam de seus olhos.
Não satisfeita, saiu à rua, quase sem abrigo, suplicando pelo açoite da
natureza em todo o corpo.
Permaneceu por longo tempo, assim, parada, quase em transe.
A chuva, que a levara para a rua, não cessava. Parecia querer
atravessar-lhe o corpo, cortar-lhe a pele, feri-la por inteiro.
Permitiu.
Seus olhos já não vertiam lágrimas.
Cansada, fechou os olhos e adormeceu.
O sol brilhava intensamente. Sentiu-se leve, totalmente em paz.
A mão, a sua frente, ofertava-lhe a mesma rosa vermelha de outros tempos.
Tão perfumada!
Sorriu.
Ele tomou-a nos braços, cochichou-lhe ao ouvido e, enlouquecidos de
paixão, transpuseram a porta, sumindo no interior da casa.
Junto ao roseiral, um corpo de mulher, completamente encharcado pela
chuva, com os cabelos desgrenhados sobre o rosto sem vida, parecendo
apenas dormir, estampava um sorriso que falava por si só.
(19 de agosto/2006)
CooJornal no 490
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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