16/09/2006
Ano 10 - Número 494


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Criança tem cada uma!


 

 

Fico pensando, aqui, com meus botões, o quanto a minha infância foi repleta de situações engraçadas. Nunca fui santa, mas, hoje, relembrando algumas coisas marcantes daquela época, vejo que fui uma menina saudável e muito feliz.

Brincava na rua. Corria, pulava corda, jogava bolita, botão de mesa, e aprontava.

Numa dessas ocasiões, havia alguns pedreiros trabalhando numa reforma que meus pais resolveram fazer na casa.

Encostada em uma cerca, de pé, com o fundo virado para o lado de fora, estava uma enorme caixa de madeira, onde eles preparavam a argamassa.

Eu, bem pequena, entrei por trás e fiquei espiando por um buraquinho. Via tudo e estava achando o máximo. Uma enorme diversão.

Não tinha intenção de ficar muito por ali, nem assustar ninguém, mas, quando minha mãe chamou pela primeira vez, não respondi. Pela segunda, também não e, aí, me bateu o medo de levar umas palmadas se aparecesse. Fiquei bem quietinha.

Pra quê! Foi um pânico geral.

Nós tínhamos um poço em casa, que não era mais utilizado, mas ainda estava lá. Retiraram a tampa e olharam bem para dentro, apavorados.

Começaram a imaginar mil coisas. O pátio foi se enchendo de gente. A vizinhança corria pra todo o lado.

Minha mãe estava quase desmaiando e eu, cada vez mais assustada, não saía, nem respondia. Permaneci calada e quase sem me movimentar para não fazer barulho algum.

Durante um longo tempo foi um caos generalizado.

Perguntaram a minha mãe se eu não teria ido pra casa de algum parente que morasse perto.

- Não, ela respondeu. As tias moram fora daqui, teria que pegar o ônibus. E se ela chegasse lá, logo a trariam de volta e me avisariam.

Eu já não sabia mais o que fazer. Não sei como passava pela minha cabeça que eu não devia sair dali. Que ia ser pior aparecer.

De repente, ouvi um vizinho, chamado Argeu, falar ‘Acho que sei onde ela está’ e se encaminhar na minha direção.

Não deu outra. Ele puxou a caixa para fora e eu surgi, toda empoeirada, suja de cimento e com os olhos arregalados, super assustada.

Nem percebi o alívio que as pessoas sentiram, pois corri pra dentro de casa, sabendo que ia levar um belo castigo.

Aos poucos foram indo embora e a situação voltou ao normal depois de uns petelecos e muitos sermões, seguidos de um banho pra tirar a cor acinzentada que eu trouxe de herança do meu esconderijo.

Passei o resto da infância e toda a adolescência furiosa com o tal vizinho. Ora essa, que cara mais intrometido!


 


(16 de setembro/2006)
CooJornal no 494


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br