
30/09/2006
Ano 10 - Número 496

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Tania Melo
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Tania Melo
VISÕES & VISÕES CIA. (I)LIMITADA
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Ao relatarmos um fato, ainda que disso não nos demos conta, o fazemos sob
o ângulo de visão da nossa alma. Dos sentimentos nela armazenados.
Se você assiste a um filme e comenta com outras pessoas sobre o que viu,
imaginou e concluiu a respeito, sempre encontrará opiniões diversas. Nas
imagens, letras e palavras atuais, expomos tudo o que trazemos em nosso
interior. A história pode ser a mesma, mas a visão e a forma de contá-la
jamais será igual.
Quando converso com pessoas que apresentam idéias tão diferentes a
respeito de um mesmo tema confesso que, chego a pensar que algum deles
está mentindo.
Não há como falar sobre o que nos cerca, sem a influência do que já nos
cercou.
Contar uma história é, portanto, falar da vida da gente, da dos outros,
das dores, dos amores, de tudo que delas fez e faz parte, tanto no real
quanto no imaginário, conforme todas estas coisas estejam armazenadas em
nosso interior.
Ao lembrarmos fatos de nossa infância, por exemplo, os relatamos como nos
aparecem, com a dimensão dada pela visão daquela época.
A criança tem sempre a impressão de que ‘o mundo é imenso’, pois ela é
pequenina.
Um menino contou-me um dia que adorava o apartamento onde passava os
finais de semana com o pai, pois lá havia uma área enorme, onde faziam
churrascos e tomavam banho de piscina. Na realidade, o local era pequeno,
com uma churrasqueira portátil e a tal piscina era daquelas artificiais,
que se enchem com mangueira. Mas ele tinha apenas quatro anos de idade.
Nos enganamos, mentimos a nós e aos outros, sem querer, crentes que
estamos contando exatamente como as coisas aconteceram. De repente, outra
pessoa que vivenciou o mesmo momento chega e diz que não foi dessa forma,
que nada era assim.
Quem está falando a verdade? Quem está inventando? Todos e Ninguém. Os
fatos estão exatamente desta forma no interior de cada mente. A pessoa tem
certeza disso quando conta a história. Está plenamente convencido de que
foi assim que aconteceu.
Um cômodo da casa onde viveram durante a infância, era lembrado de forma
completamente inversa por dois irmãos, já adultos. O primeiro contava
sobre um quarto bonito, arejado e claro, com uma janela muito grande, que
se abria para um lindo jardim, enquanto o outro descrevia um espaço feio,
de uma cor sem graça nas paredes, muito escuro, e jurava que não havia
nenhuma flor que pudesse ser vista da janela(lembrava-se, inclusive,
desta, sem detalhes, mas dizia que estava constantemente fechada e o
ambiente era abafado).
Ao fazer seu relato, aquele que via o cômodo como os olhos da beleza,
claridade e amplitude, não fazia nada mais do que expor, exatamente, as
sensações por ele vivenciadas naquele local. O mesmo ocorria com o segundo
ao lembrar um espaço feio e escuro. Provavelmente este último deve ter
passado por momentos desagradáveis neste mesmo quarto. Os dois bateram a
mesma foto com máquinas diferentes, existentes em suas almas-crianças e
esta ficou guardada, imutável, por todo este tempo, em suas memórias. Cada
um com sua visão. Cada qual com seu sentimento a respeito, transformado em
imagem verdadeira. Nem um, nem outro estavam contando mentiras, ou
inventando detalhes. Cada um possuía o ‘seu quarto’.
(30 de setembro/2006)
CooJornal no 496
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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