14/10/2006
Ano 10 - Número 498


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Que heroínas, que nada...



 


Como o meu telhado anda pesado e carregado, subi pra jogar fora o que me der “na telha”.

De um lado, teia de aranhas, do outro, cocô de passarinho, ninhos, pombas que arrulham sem parar. Tico-ticos, libélulas e bem-te-vis. Todos adoram o meu telhado.

Minha cabeça, (ops, telhado) é uma bagunça e uma sujeira só.

Aranhas comendo moscas, igual a mim. A cigarra cantando e as formigas trabalhando, como sempre foi. Há horas que sou formiga... mas adoro ser cigarra.

As teias prendem os insetos pequenos e enredam, junto, a mim, que ali estou, atoleimada, sem ação.

O limo toma conta de tudo. Vejo que até meu corpo está coberto por este visgo. Faço parte do quadro. Arte moderna ou ultrapassada?

Lembro das telhas novinhas. Brilhantes. Hoje somos uma mistura de verde- musgo com preto, escura e apagada.

Pobre telhado. Pobre de mim.

Quem sabe uso a mangueira e a vassoura e saio feito a Gata Borralheira, limpando tudo? Alice não vai querer ajudar, pois o país dos espelhos já lhe dá um trabalhão. Branca de Neve fará cara de braba, porque os anões lhe deixam sempre mil incumbências.

Quem sabe a Bela? Ih, nem pensar! Fiquei sabendo que a Fera já não é mais tão doce e apaixonada. Tá exigindo demais da coitada.

Rapunzel daria uma risada e jogaria as tranças pra outro lado. A bruxa não permite resquício de pó na torre. Ela anda apavorada.

Todas juntas faríamos o serviço num instantinho.

Lembrei da Fiona. Qual o quê, deixa pra lá, pois o Schrek é um comilão exigente e vou acabar ouvindo mais um não.

Abro os classificados e encontro uma faxineira. A pobre chega e põe as mãos na cabeça, apavorada. Pega as trouxas e se manda, dizendo: ‘Nem por dez vezes o que ofereceu...To indo’.

Sento no chão e choro, desolada e impotente. Sinto as gotas caindo em minhas mãos. Depois de algum tempo percebo que não são apenas minhas lágrimas, mas, sim, uma chuva torrencial que, em minutos, acaba com a enorme confusão que me desesperava.

Com o telhado aliviado, sem peso, sapateio sobre ele ao som de “Singing in the rain”.

 


(14 de outubro/2006)
CooJornal no 498


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br