
21/10/2006
Ano 10 - Número 499

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Tania Melo
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Tania Melo
DEUS ME LIVRE!
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Ora, vejam só, Eco, uma linda ninfa dos bosques, tornou-se o símbolo da
tagarelice irrefreável. Conta-se que ia sempre ao monte Olimpo a pedido de
Zeus para ficar distraindo Hera com a sua conversa, enquanto o safado rei
dos deuses e dos homens fazia das suas entre os mortais (leia-se 'as'
mortais).
Cá pra nós, hein? Não é de hoje que os homens são terríveis! O exemplo
veio de cima, literalmente.
Mas, um dia, Hera descobriu esta tramóia toda e puniu Eco com o pior dos
castigos: tirou-lhe a fala e condenou a pobre coitada a repetir as
palavras que escutava dos outros.
Todos nós conhecemos alguém assim. Uma Eco antes do castigo. Fala tanto
que dói os tímpanos. Fala sozinha, fala pras paredes, fala pro vento que
voa. Fala, fala, sem parar.
Existem vários nomes que a definem. Pilreta, pispirreta, pispineta, e por
aí afora, mas todos eles traduzem a mesma figura, espevitada, falante e
irrequieta.
Silvia tem um bom emprego e é muito inteligente. Sua conversa vai de
Dostoievski, passando por Calvino, chegando a histórias em quadrinhos
infantis. Pratica musculação e artes marciais. É uma garota bonita,
chamativa... e tagarela.
Ela não dá chance. A gente pensa em falar e a palavra fica pela metade,
pois há sempre uma história repleta de detalhes chatos, cansativos, e que
não acaba.
Já teve mil namorados, mas nunca dá certo. Ela chora. Pergunta o que será
que foi desta vez, pois fez tudo tão certinho.
O que houve é que o pobre não agüenta o tranco. Cai fora.
Um homem, quando quer conquistar, suporta muita coisa: novela na tv,
Domingão do Faustão, sogro puxando papo, cunhado xarope contando piadas
sem graça. Tudo vai, pois pensa na gata. Vale o investimento.
Mas mulher tagarela, homem não segura.
O pior de tudo é que o assunto principal da Silvia é ela mesma. Só se
auto-elogia. O resto é o resto. Ela é o centro de tudo. Gesticula, bate no
ombro do namorado, empurra, aumenta a voz, representa a cena. Não dá uma
folguinha. Não tem espaço. O máximo que ele consegue dizer é ‘ah’, porque
ela engata uma segunda e vai. Sobe a lomba, direto.
A tagarela não escuta. Não consegue, por mais que tente se concentrar. Em
poucos minutos já está viajando com o olhar e falando de um assunto que
não tem nada a ver.
Quando o namorado lhe contou que havia sido escolhido pra chefiar uma
equipe de professores na universidade, sabem o que ela respondeu?
- Sempre fui líder. Sou muito dinâmica. É o cargo ideal pra mim.
Acabou ali o relacionamento. Ele desistiu.
Só uma coisa é pior que isso: Um homem tagarelando. Sai da frente!
(21 de outubro/2006)
CooJornal no 499
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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