04/11/2006
Ano 10 - Número 501


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Ao sabor do pagode



 


Depois de tudo o que ando vendo ultimamente, estou seriamente inclinada a fazer, como o Erasmo, que não é o Carlos, mas o Rotterdam, o meu Elogio à Loucura.

Tenho visto tanta gente maluca sendo feliz enquanto aqueles todos certinhos, que se guiam pela razão, tentam andar na linha certa, sem desvios, sofrem mais as conseqüências de qualquer resvalada do que um louco que passa a vida toda num ‘gira mundo’.

‘Ah, como fulana é alegre. Ri de tudo e nem esquenta a cabeça.’

‘Cicrano vai acabar doente, pois é muito responsável, duro. Não sabe viver a vida numa light’.

Aí me vem à cabeça, imediatamente, o ‘deixa a vida me levar, vida leva eu...’, cantado pela maioria, ainda que não curtam o Zeca. Curtem a vida.

Minha vizinha de porta é uma ‘curtidora’ elevada ao cubo. Acorda bem cedinho e já liga o som, a todo o volume.

É tão alto, que Hipnos dá um grito, apavora Morpheu e sobra pra mim, que sonhava com as minhas próximas férias em Toscana. Pode uma coisa dessas?

Se, por acaso, eu lhe perguntasse exatamente isso, esbugalharia os já enormes olhos azuis, dizendo: ‘Credo, como tu és mal–humorada. Logo de manhã cedo já assim, imagina quando chegar à noite. Curte a vida, mulher!’

Como é que vou explicar pra ela que minha curtição é outra. Que preciso trabalhar pra conseguir alcançar a danada e que pra isso tenho de acordar bem, sem sobressaltos, tomar meu café, sossegada, sem ser obrigada a ouvir ‘vou te telefonar pra dizer que tô prenhuda, tô desnuda, tô desnuda’, ou ‘vem cá minha cachorra, diz que sou teu cachorrão’?

Vontade eu tenho é de largar um pitbull pra cima dela, quando escuto esta desgraça.

Mas sou considerada uma ‘chata, reclamilda’, como escutei, esses dias, um de seus filhos falando pra um amiguinho, quando eu passava.

Com toda a certeza estou incluída na categoria dos que ‘vão acabar doentes, pois não sabem viver a vida numa light’, mas não tem quem possa suportar a loucura que acontece o dia inteiro, hora após hora, minuto a minuto, naquele apartamento.

Eu trabalho em casa, ou melhor, trabalhava, pois não tenho mais condições de fazer a análise dos textos e resenhas dos livros que preciso enviar para a revista, quinzenalmente.

Além de tudo, ela se acha o supra-sumo da boa vizinha. Vive batendo nas portas dos outros, levando um pratinho de arroz-doce, um bolinho que acabou de fazer, e já vai se enfiando casa-a-dentro.

Como é que a gente vai mandar embora uma criatura dessas, que chega te presenteando e sendo gentil?

Lá se vai, no mínimo, uma hora de papo-furado e fofocas do condomínio.

Nem me arrisco a perguntar nada. A conversa se multiplica a cada contestação ou argumentação. Nem pensar. Só ouço e sacudo o pé, com as pernas cruzadas, demonstrando ansiedade.

‘Tá nervosa, hoje? Dormiu com os pés de fora?’.

Haja paciência.

Fiquei sabendo pelo porteiro (que sempre está por dentro de tudo), que ela está se mudando. Comprou uma cobertura noutro prédio.

Tomara que fique bem longe dali, porque, do contrário... Já imaginaram, não? O som repercute mais em lugares altos e abertos.

 


(04 de novembro/2006)
CooJornal no 501


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br