28/10/2006
Ano 10 - Número 500


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


LOS QUATRO HERMANOS



 


Lá em casa sempre houve a velha e conhecida disputa entre irmãos.

Somos em quatro: Teka, Enio, Zeca e euzinha aqui.

Existe uma grande diferença de idade entre minha mana mais velha e eu, que, verdadeiramente, hoje em dia, não conta mais; mas, quando eu era criança, fazia, sim.

Ela era a moça bonita, morena, que trabalhava fora, como secretária, enquanto eu era uma pirralha que corria pelas ruas, brincando e fazendo estripulias.

Logo depois vem o Enio. Apenas um ano de diferença da Teka. (meus pais trabalharam ligeiro nesta época). Os dois têm inúmeras recordações e passagens juntos. Algumas boas e engraçadas e outras, nem tanto.

Passados cinco anos, lá vem o José Carlos, mais conhecido, na intimidade, por Zeca (na época de festas era o Zé bonitinho, mas não pensem que tinha aquela cara horrorosa do humorista em questão. Disputadíssimo, inclusive por garotas da minha escola, que viviam me rodeando, mandando recadinhos).

Sete anos depois, surjo eu, cheia de dengos e super-mimada, como eles gostam de dizer.

A Teka, além de mana, é também, minha madrinha e sempre foi minha incentivadora pra tudo, pois a minha mãe tinha pouco tempo para atender a tudo: casa, filhos e comércio.

Ajudava-me nos trabalhos escolares e um deles marcou. Nunca esqueci: Como eu estudava em colégio de freiras, tínhamos que escrever, no caderno de religião, qual tinha sido o assunto do sermão do padre, na missa de domingo (óbvio que tínhamos de comparecer).

Só que ela sempre me deu força ali, pois entendia muito mais do que eu sobre as parábolas e outras coisitas.

A frase inicial dos textos, entretanto, era sempre a mesma: “Falou-nos o Padre na missa sobre o seguinte”... e por aí seguia, com o tema da semana.

O Zeca tinha a sua turma no clube e vivia em festa. Logo arrumou uma namoradinha com quem se casou e vive junto até hoje. Mas era meu amigão.

Com o Enio eu aprendi a dançar, pois me carregava sobre seus pés (e dançava bem demais).

Hoje não tem ritmo que eu não acompanhe. Irmã de peixe...

Mas eu e ele brigávamos muito. Alias, eu não. Ele é que brigava comigo, porque eu era tinhosa, de verdade. Aprontava e como ele não aceitava, saía no meu encalço, o que lhe acarretava uns pára-te-quieto do meu pai.

Numa dessas passagens, nossa cozinheira fez um prato especial para ele, que chegava fora do horário normal, para jantar. Huuuuummm! Estava com um cheirinho. Sabem o que era? Um arroz de carreteiro, temperadíssimo, quentinho.

Perguntei de quem era aquele arroz e recebi a resposta que já sabia. 'É para o Enio'.

'Ah, vou comer! '

'Não faça isso. Ele vai chegar louco de fome e vai enlouquecer ao ver que não tem comida preparada pra ele, disse a D. Alda, a cozinheira. Ele me recomendou.'

'Eu faço outro. Prometo. Como esse e faço outro bem novinho. Igualzinho.'

A mulher não tinha como discutir comigo, pois meus argumentos eram fortes.

Bem, comi todo o carreteiro e não lavei nem a panela. Me sumi. Fui fazer as minhas coisas.

Quando o mano (como chamamos o Enio) chegou em casa, tomou seu banho e veio jantar. Olhou por todas as panelas e não encontrou nada.

D. Alda, onde está a minha janta? A senhora esqueceu?

Não esqueci nada. Eu deixei prontinho, mas a Tânia comeu e disse que ia fazer outro, pra substituir.

Nem preciso dizer que levei aquela bronca, pra variar.

Hoje, depois de muitos anos, onde todos já somos adultos, de verdade, sendo que meus manos são, inclusive, avós, lembro disso com muita saudade, principalmente nestes dias que têm sido bem tristes, pois o mano Enio está hospitalizado e num estado bastante grave.

Vou lá, abraço, beijo e acaricio muito, mas nada é o bastante. Sinto que precisaria voltar no tempo pra mostrar pra ele que as sapequices que eu fazia não tinham a intenção de feri-lo, mas, sim, de incomodar e mostrar que eu era a favorita do papai.

Mano querido, que eu te encontre aliviado de tuas dores, amanhã, quando for te fazer companhia, pela tarde, tá?

Queria muito poder te convidar pra dançar. Sairmos rodopiando pelo quarto do hospital, eu sobre teus pés, ou, quem sabe, te carregar sobre os meus, já que não estás conseguindo andar e voltarmos ao passado, num samba- canção, na voz do Nelson Gonçalves, teu cantor favorito, de quem sabias todas as letras e a quem imitavas, pois tinhas um tremendo vozeirão, sendo convidado, até mesmo, para cantar no clube, durante as festas dançantes.

Tenha uma excelente noite, meu mano amado e que eu consiga te passar, por meio da emoção que sinto neste instante, uma energia tão boa e tão iluminada, que teu corpo relaxe, consigas deitar e descansar, a fim de que eu possa te encontrar mais animado.

Um beijo especial pra ti. Um beijo, também, pro Zeca e pra Teka. Obrigada irmãos queridos, por fazerem parte da minha vida.


 


(28 de outubro/2006)
CooJornal no 500


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br