11/11/2006
Ano 10 - Número 502


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Com o que sonha Ana Maria?



 


Vestido na vitrine da loja de luxo. Ah! quem me dera, pensa a pobre moça, com a roupa surrada, bolsa a tiracolo, carregando as esperanças e todas as contas a pagar.

A luz, vinda de cima, ilumina as rendas e pedrarias que o bordam. É um espetáculo.

Coisa digna de uma princesa.

Ana Maria segue seu caminho para casa, automaticamente, viajando nas fantasias.

Ele a espera no altar, num fraque belíssimo, igualzinho ao que ela vira no armário do Doutor Amarante, seu patrão.

Não vê o rosto do noivo. Isso é o que menos conta. O sonho está na grandeza da cerimônia. Na pompa. Nos olhares cheios de inveja das convidadas que, fingindo estarem felizes, sorriem, mas se mordem por dentro, enquanto ela, deslumbrante, ao som da Marcha Nupcial, braço dado com seu pai (que não está embriagado e é um homem muito importante, conhecido na cidade por seu talento para os negócios e maravilhoso pai de família), percorre o corredor que separa a porta da entrada da Igreja, totalmente decorada com rosas brancas, em guirlandas que pendem dos bancos e enormes bouquets do altar repleto de vasos com as mesmas flores.

Pára, bruscamente. Tudo se transforma, em questão de segundos. O noivo está maltrapilho, seu pai, embriagado, como de costume, tropeça e cai, quase a levando junto. Seu belo vestido se rasga e as gargalhadas ecoam por toda a igreja, fazendo com que ela corra sem parar, indo se esconder em seu minúsculo quartinho, com fotos de Robert Redford, Mel Gibson e Richard Gere pelas paredes, rindo para ela (ou dela?).

Volta à realidade. Está chegando ao portão de casa. Na sala, o de sempre. Seu noivo a espera, tomando um aperitivo com o sogro, mãos e unhas sujas de graxa, mas um sorriso mais branco do que propaganda de pasta dental. O coração de Ana Maria sorri e pula no peito, mostrando-lhe a verdadeira felicidade. Casa-se no mês que vem, numa cerimônia simples, onde os convidados são os velhos amigos e os parentes mais próximos. Nada mais.

Sua casa nova, ou melhor, o aumento feito na casa dos pais, está sendo pintado pelo irmão mais moço, que também está presente, respingado de azul dos pés à cabeça.

Abraça e beija o noivo. Experimenta o vestido emprestado da Mandinha, sua irmã mais velha e sente-se a própria princesa encantada.

Ah, mas o vestido da vitrine...
 

 


(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br