
25/11/2006
Ano 10 - Número 504

Arquivo
Tania Melo
|
Tania Melo
Vudu
|
 |
Finalmente consegui um tatuador que entendeu exatamente o que eu queria.
Como se víssemos com os mesmos olhos, suas mãos, tintas e mágicas agulhas
foram dando forma e cor à linda sereia, exatamente como eu sempre sonhara,
na nuca, logo abaixo da raiz dos cabelos.
Meu sucesso com os garotos mudou radicalmente. Foi impressionante. Nunca
mais fiquei sozinha. Bastava sair à rua, para que os olhares me seguissem,
encantados.
O tempo de assistir a DVDs, ler, ou bater-papo pela internet, cedeu lugar
a noitadas maravilhosas, cinemas, passeios, convites e mais convites. As
meninas da escola, acostumadas a verem sempre aquela figura tristonha,
compenetrada, solitária, carregada de livros, constantemente na biblioteca
a pesquisar, causando inveja pelas notas alcançadas, não se continham,
surpresas, interrogando-se sobre a causa de tamanha mudança.
Inexplicável! Não encontravam resposta, pois o mais incrível, em tudo era
que eu não alterara em um milímetro o meu visual sem graça. Continuava
usando os mesmos vestidinhos antiquados, os cabelos presos por um elástico
e os inconfundíveis óculos "fundos de garrafa", que sempre foram motivo
das maiores gozações. Entretanto não havia menino que não ansiasse por um
sorriso, um simples cumprimento na hora do recreio, disputando minha
companhia.
Virei a rainha da escola e adorava a situação.
Aproveitei para me vingar de todos aqueles que, antes, haviam me ferido.
Todos passaram a ser usados por mim, sem a menor piedade. Era a minha vez.
Eu estava viva, como jamais havia estado.
Certa manhã, no entanto, acordei me sentindo diferente: Pesada. Era como
se carregasse centenas de quilos sobre as costas. Quando olhei no espelho,
não acreditei: ao redor da imagem da linda sereia, surgiam, num crescendo,
figuras de barcos, cujos tripulantes, alucinados, numa disputa desenfreada
para chegarem até ela, abalroavam-se, destruindo-se, mutuamente. Os rostos
eram conhecidos. Vi, com horror, Marcelinho, Júnior, Paulo e todos os
outros garotos com quem eu saíra nas últimas semanas.
Gradativamente o peso foi aumentando, a ponto de eu quase não conseguir me
locomover. Tornei-me encurvada, como uma velhinha, causando uma impressão
tenebrosa.
Procurei pelo tatuador que, para aumentar o meu pânico, não conseguiu
apagar nenhuma das imagens. Ao contrário, suas mãos acrescentavam ainda
mais barcos, mais peso, mais dor.
Estava desesperada. A cada trombada e destruição, meu corpo retesava. Eu
não via mais saída.
Ainda por cima, os assédios prosseguiam. Não ia mais à escola,
escondia-me, mas de nada adiantava. Meu corpo havia se transformado num
porto, uma doca, onde se empilhava um número cada vez maior de embarcações
e garotos encantados pela imagem da sereia em minha nuca.
Sem encontrar outra solução, queimei, com o ferro de passar, a pele
tatuada. Urrei de dor!
Imediatamente, as figuras foram se desprendendo, arrastando consigo
enormes pedaços de carne e pele.
Afinal, restou de mim tão somente a imagem deformada da sereia, que
esboçava um sorriso irônico e vitorioso, traduzido por meus lábios já sem
vida.
(25 de novembro/2006)
CooJornal no 504
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
|
|