
09/12/2006
Ano 10 - Número 506

Arquivo
Tania Melo
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Tania Melo
Agüenta, Laurindo!
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Sala cheia. O professor se apresentando pra turma do Básico, onde a gente
optava por cinco cadeiras comuns a vários cursos.
Antropologia. Todo mundo se achando os tais: Universitários.
Depois do intróito, como relação de material, formas de avaliação, etc,
ele pegou a lista de alunos e deu início à chamada.
Assim que o nome era dito, a gente levantava pra que todos ficassem
sabendo quem era quem.
‘Peço a todos que memorizem o seu número, pois, daqui pra frente, é assim
que serão identificados’.
‘Número 1, Ana Padilha’.
Todos os pescoços se viravam pro aluno que ficava em pé, mais vermelho que
uma pimenta.
E foi seguindo...
‘Número 24, Laurindo Rocha’.
Nada.
Repetiu, bem alto:
‘24, Laurindo Rocha’.
Como ninguém se apresentou, ele seguiu em frente.
De repente, um rapazinho magro abriu a porta e, pedindo licença, entrou.
Sentou e ficou prestando atenção.
‘Número 35, Silvia Boeira’.
Quando o último foi chamado, o magrinho levantou o dedo e disse ‘Não sei
se o senhor me chamou antes que eu chegasse, mas meu nome é Laurindo
Rocha.’
‘Chamei, sim. O senhor é o número 24. Grave bem’.
‘Ah, não senhor, professor. De novo, não. Quero ser chamado pelo nome.’
‘Mas, por quê?’
O Laurindo estava uma fera.
‘Na outra turma já foi a maior gozação. Agora, aqui, outra vez, é muito
azar. Me chame de Rocha, mas não de 24’.
A esta altura, muitos alunos já se matavam de rir, enquanto outros, assim
como o professor, não estavam entendendo nada.
‘Só se o senhor me der uma justificativa muito boa. Do contrário é 24,
mesmo’.
‘Então não sabe que este é o número do veado no jogo do bicho?’.
A gargalhada foi geral, mas o Laurindo ganhou a questão. Nunca mais foi
24. Pelo menos ali, em sala de aula.
(09 de dezembro/2006)
CooJornal no 506
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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