
16/12/2006
Ano 10 - Número 507

Arquivo
Tania Melo
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Tania Melo
Sem força($) para
argumentar
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Com a máquina elétrica, Nicolau recorta aviõezinhos, carrinhos, bonecos e
vários outros brinquedos.
Estou atrasado. Também, com a danada desta tosse e a dor nas costas...
Mas, se eu segurar neste ritmo, vou conseguir terminar tudo até a noite de
24.
Repentinamente, a oficina fica no escuro e a máquina pára de funcionar.
Na mesma hora ele telefona para a Companhia de Energia explicando que não
pode ficar sem luz de jeito nenhum. Que o Natal das crianças do mundo
inteiro depende daquela máquina trabalhando a todo o vapor.
Escuta uma risadinha, vinda do outro lado, de quem não acreditou numa
palavra de sua história.
‘O senhor teve a luz cortada por falta de pagamento. Por favor, compareça
a uma de nossas lojas para regularizar a situação. Somente depois de paga
a conta é que a luz será religada.
Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?’.
Ele ainda tenta argumentar, mas vê que está perdendo tempo, agradece e
desliga.
Troca de roupa, prepara o seu ‘trenó’ e lá se vai, cansado, doente, tentar
resolver o problema.
Simplesmente vestido, um relógio comum no pulso esquerdo e, sem nenhuma
deferência, espera, como todos os demais, não tendo recebido, sequer, uma
ficha preferencial devida a sua faixa etária.
Tossindo muito, com a respiração forçada e ofegante, ainda tenta esconder
a dor e o cansaço na doçura do olhar e na magia do sorriso que oferece a
quem está próximo.
Como é que ninguém se dá conta de que aquela figura que está ali é a que
vem encantando a humanidade há tantos e tantos anos, fazendo vibrar o
coração das crianças, ao imaginá-lo descendo pelas chaminés, ou entrando
pelas janelas das casas para depositar os presentes sob a árvore, ou em
sapatinhos?
Ao ser chamado, fala, com doçura na voz, que precisa com urgência da
energia para concluir um trabalho extremamente importante, inadiável.
‘Infelizmente, senhor, somente com o pagamento do débito poderemos efetuar
o religamento da luz, o que ocorrerá, no máximo em quarenta e oito horas
após a solicitação’.
O pobre velhinho, quase chorando, explica que não tem um tostão, porque
trabalha por amor e não por dinheiro e que não pode, de maneira alguma,
pagar aquela enorme conta.
Sem nem olhar para o rosto de Nicolau e já chamando o próximo a ser
atendido, o rapaz responde, friamente:
‘Lamento, mas não posso fazer nada.’
As lágrimas contidas até então, despencam dos olhos do velhinho e ele,
agradecendo, se levanta e sai, lentamente, carregando sobre os ombros o
peso da desilusão e a enorme tristeza que sente por concluir que os
cifrões são os verdadeiros senhores deste mundo.
Atravessa a rua, entra em seu ‘trenó’ e ainda ouve um fiscal de trânsito
dizer que vai deixar passar sem multá-lo por haver estacionado em local
proibido para carroças, porque, afinal, estamos perto do Natal e quer que
o Papai-Noel saiba que ele foi bonzinho.
(16 de dezembro/2006)
CooJornal no 507
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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