
23/12/2006
Ano 10 - Número 508

Arquivo
Tania Melo
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Tania Melo
Dóra, não lava a
panela
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Desde muito pequena, lembro que, em nossa família, tios e primos eram
vistos como ‘gente de casa’, sem nenhuma figura de linguagem cabendo
nestas palavras.
As portas de cada um estavam sempre abertas para os outros, independente
da hora, do dia, ou do motivo que os levasse até lá.
De criança, só me lembro das alegrias, reuniões festivas e sorrisos.
Provavelmente havia, entre os adultos, encontros onde nem tudo era festa,
mas nós, pequenos, nos divertíamos a valer, enquanto juntos.
Ansiávamos pelas férias que eram passadas um pouco aqui, um pouco lá.
Andávamos como ‘bandeiras do Divino’, como costumava dizer a minha mãe.
Tia Doralina morou algum tempo distante de nós, no estado do Paraná, com
os primos Zuleica, Gilberto e Gelson, mais o tio Jorge, numa grande
plantação de café.
A saudade era suavizada pelas cartas e fotografias que as irmãs trocavam,
contando de como a vida ia se passando.
Um dia, entretanto, pra alegria de todos, lá vieram eles, de volta pro Rio
Grande, definitivamente.
Foi como se nunca tivessem saído de perto da gente. Os primos eram como
irmãos e o Gelson, inclusive, morou um tempo em nossa casa, antes de os
pais chegarem, pois não podia perder o início de um curso na Varig.
A Tia Dórica, ou Dóra, como a chamávamos, era a mais alegre e divertida
das irmãs da minha mãe. Pra ela não tinha tempo feio e nem gente ruim.
Todos tinham qualidades. Distribuía sorrisos e fazia amizades por todo o
lado.
Sempre ria muito, contando que eu, com dois anos de idade, doente, sem
poder comer nada forte, tendo que passar à base de canjas e sucos, olhei
pra ela, com os olhos caídos, de tão fraquinha e disse: ‘Dora, não lava a
panela que eu ainda não comi feijão’.
Esta história acompanhou-nos desde sempre e era repetida a cada vez que
nos encontrávamos, com muitas risadas.
Passeadeira como ela só, adorava visitar os parentes e amigos, sem dia nem
hora pra voltar pra casa.
Os filhos já casados, os netos crescidos, os bisnetos chegando e a Dóra
sempre alegre, recebendo a todos, abanando pros vizinhos, com a casa
cheia, ou visitando alguém.
Há questão de um mês, entrou na igreja de braços com um neto que ia casar
e fez questão de que vó Dorica o acompanhasse até o altar.
Na terça-feira, dia 19, ela foi fazer seu último passeio, deixando a todos
nós a lembrança do seu doce sorriso, sua alegria e uma enorme lição de
como se viver intensamente a cada dia, por 85 anos.
(23 de dezembro/2006)
CooJornal no 508
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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