
13/01/2007
Ano 10 - Número 511

Arquivo
Tania Melo
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Tania Melo
Naufrágio
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São tantas as chegadas e partidas que, muitas vezes, me perco pelo
caminho.
Na ânsia de acertar, descarregando angústias, medos, tristezas e ausências
que recebam como paga tranqüilidade, paz de espírito, alegrias e presenças
a me encherem o coração, embaço, totalmente, os vidros do navio,
tornando-se impossível visualizar o porto para o qual rumava.
Tristemente me dou conta que a viagem foi em vão, que os temporais
enfrentados, com ondas imensas e ventanias apavorantes, serviram, tão
somente, para me transformar em uma pessoa ainda mais infeliz e assustada
do que antes.
Quero muito ser capitão de meu barco, sem medo, seguindo a bússola clara,
que sempre aponte àquele lugar ansiosamente procurado por tantos
navegantes-um porto seguro - entretanto, a alma-luneta mostra, apenas, um
amontoado de terras estranhas, cobertas por uma vegetação escura, repleta
de perigos.
São duas as opções: ou aporto e enfrento fantasmas desconhecidos, ou
deixo-me levar pela força deste mar, a qual irá, fatalmente, destruir o
que ainda resta vivo em mim.
Sinto tanto medo, que nem sei o que fazer.
As tempestades crescem, jogando-me contra o convés, de onde consigo apenas
definir a imensidão que me cerca e a distância cada vez maior entre mim e
o cais da paz. Os vagalhões se lançam, com força crescente e um ruído
assustador que não é nada mais do que o gemido de uma alma assustada e
triste, que vê passarem-se os dias, meses e anos, sem que o corpo-barco
consiga encontrar o seu lugar e, finalmente, lançando âncoras, aportar.
Impotente, desisto da luta. Abandono pensamentos e sonhos alimentados
durante todas as viagens, bem no fundo deste mar imenso, para servirem de
alimento aos peixes-dores, que, insaciáveis, muito logo alcançarão meu
corpo e meu espírito, se é que ainda existe algum habitando este 'eu',
cada vez mais inseguro e sofredor.
Repentinamente, um vagalhão imenso de esperança me atinge, engolindo o que
sobra de mim antes que os monstros marinhos o superem. Como Robinson
Crusoé, ao abrir os olhos, sinto o sol batendo-me no rosto e o contato com
a areia quente, devolve-me à vida.
Terei achado, finalmente, meu porto seguro, ou serei apenas mais um ser a
vagar, atormentado, dia após dia, eternamente, somado aos fantasmas desta
imensa ilha?
(16 de janeiro/2007)
CooJornal no 511
Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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