20/01/2007
Ano 10 - Número 512


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Shakespeare no samba



 


Desdê era dona do gingado mais bonito que a vila conhecia e não havia cristão que ficasse indiferente quando ela passava, cheirosa, sacola na mão, indo pra feira, toda manhã.

Otelo babava, se retorcia e era capaz de vender a alma por um sorriso da mulata, mas se conformava em olhar, sabendo que a concorrência era grande e reconhecendo que toda aquela areia não ia cair em cima do seu caminhãozinho. Era demais!

Nos pagodes de fim de semana lá estava ela, tomando conta da festa.

Seu riso muito largo, ou melhor dizendo, sua risada gostosa, de verdade, enchia o salão do Cardosinho.

Tratamento de primeira pra Desdê que nem ligava pra esses luxos.

Queria mesmo era sambar e quando parava pra refrescar o corpo e molhar a garganta, sobravam loiras geladas nos braços esticados em sua direção.

Otelo se contentava em ser mais um. Aquele que oferecia o lenço pra secar o suor da Desdê e depois o levava pra casa, onde guardava como relíquia, sem nunca mais lavar ou usar. A pilha crescia na prateleira do armário e jogava fermento no sonho do pobre do mulato.

Se via sambando com Desdê. Todo mundo olhando, morrendo de inveja. O olho dela não saía do dele. O riso solto era só pra ele. Tudo era dele. Desdê inteirinha.

Mas todo Otelo tem um Iago pra lhe atormentar. O seu era o Zeca, da escola de samba mais famosa do morro, que sempre levava o campeonato e as morenas mais bonitas pra casa.

Seu Jorge, pai da moça, dono da terreira grande, pai-de-santo dos bons, avisava pra que ela tomasse cuidado.

‘Muito homem na volta dá confusão’.

‘Deixa disso, velho. Tá tudo bem. O pessoal é legal demais. Eles gostam de mim’.

No sábado, pagodão dos bons. O pessoal todo lá.

Era dia da escolha da rainha da bateria e do samba-enredo pro próximo desfile.

Já dá até pra imaginar quem foi escolhida pra majestade, não é? A própria. Desdê.

As músicas dos poetas falavam de paixão, ciúme, amor, do homem abandonado, do poder, do diabo, do inferno e da inveja.

O samba do Otelo rebentou. ‘Foi pras cabeças’, gritavam, empolgados. ‘Já ganhou’.

Iago teve seu samba ‘prejudicado’. 'Maracutaia', gritava, furioso.

Naquela noite, Otelo foi rei e Desdê a rainha. O sonho virou realidade. Sambaram juntos até o fim da noite, enquanto o olho dela só via o dele e o riso solto não era de mais ninguém.

Terminada a festa, abraçados, lá se foram pela rua, felizes.

No meio do caminho, surgiu o Iago, totalmente fora de si, inconformado, apontando uma pistola.

Um estampido. Um grito. O silêncio.

Otelo, transtornado, partiu pra cima dele e, na luta, mais dois tiros ecoaram no ar.

Desdê vestiu uma fantasia vermelha que esparramou pela calçada.

Iago desfilou a máscara do pavor no rosto já sem vida, enquanto Otelo, enlouquecido, cantava o samba-enredo pra sua rainha.


 
(20 de janeiro/2007)
CooJornal no 512


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br