27/01/2007
Ano 10 - Número 513


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


EU VI ABRAÇOS



 


Nesta última quarta-feira, o calor em Porto Alegre era insuportável (aliás, continua).

O que mais se via eram pessoas se abanando, esbaforidas, bebendo algum suco, refrigerante, procurando um lugar onde refrescarem o corpo, de preferência com ar condicionado.

Entretanto, situação bem contraditória e curiosa, pois pipocaram na minha frente, a ponto de me chamar a atenção, eu vi abraços. De verdade, daqueles de uma entrega completa ao carinho, com igual retribuição da outra parte.

Na entrada da galeria onde fica a Livraria do Globo, duas mulheres, amigas, primas, ou irmãs, encontravam-se, depois de muito tempo, ou reatavam laços rompidos. Dava pra perceber que não era uma despedida, mas, sim, um reencontro. Uma delas, inclusive, tinha os olhos fechados, guiando-se, tão somente, pela emoção que sentia, sem preocupar-se com os milhares de transeuntes a sua volta, num imenso abraço.

Lindo demais!

Pra mim, o abraço é uma das mais belas formas de demonstrar-se bem querência, apoio, saudades ou perdão. Ele rejuvenesce, melhora o humor, afasta pensamentos ruins, alivia do estresse e, principalmente, reaproxima as pessoas de uma forma tão bonita quando faltam a voz e a coragem para um verdadeiro pedido de perdão.

É uma injeção de vida em quem o recebe e em quem o dá. Adoro ser abraçada e amo abraçar.

Mais adiante, vi um casal de namorados que esperavam a lotação. Conversavam, frente a frente e, de repente, aconteceu a magia. Abraçaram-se, passando energia até a quem estava fora do círculo real dos corpos.

Não era um abraço com características sensuais. Era um doar-se e receber total, de ambos, pleno e maravilhoso.

Sequer trocaram, ao final do abraço, o esperado beijo apaixonado. Não. Ele foi a medida certa para transmitirem o que sentiam um pelo outro, ou o que, naquele momento, queriam dizer, sem palavras.

Na seqüência, vi mais dois pares, em situações semelhantes. Fato que, como disse, chamou-me a atenção, pois só com o sentimento brotando, verdadeiro, poderiam estar, assim, num dia terrivelmente quente, mantendo um contato tão profundo e prolongado.

Percebi, ao final de todos os abraços assistidos, que, a mão divina traçava o contorno entre estes corpos, ora um só, querendo mostrar a todos, um dos vários formatos do amor.


 
(27 de janeiro/2007)
CooJornal no 513


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br