03/02/2007
Ano 10 - Número 514


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Querência ou Dependência?




 


Fazia quase um ano que eu não via Maria Eliza. Ontem, na saída do restaurante onde almoçamos, lá estava ela.
Fez uma festa quando me enxergou, me abraçando, toda efusiva.

Confesso que até estranhei, pois ela não era muito dada a abraços e sorrisos.

Retribuí, fazendo a pergunta de praxe, aquela que não espera uma resposta além de ‘tudo bem, e você’?

‘Estou ótima. Feliz, de verdade. Lembra do Sérgio, nosso amigo, aquele, com quem sempre saíamos? Vamos nos casar.

Finalmente achei minha cara-metade. Estou apaixonada.

Ele é maravilhoso. Diz o tempo todo que eu sou o remédio para sua felicidade.

Sabe tudo da vida, menina! Um completa o outro. O que eu não sei fazer, ele sabe. Tu me conheces, não é? Sempre fui terrível, mandona. Pois ele é uma doçura. ’

Eu não conseguia responder, pois a descrição do ‘caso de amor’ não dava espaço, era ininterrupta, com pausa apenas para um respirar apressado.

Quando consegui dar tchauzinho e até a próxima, já tinham se passado quase trinta minutos em que eu apenas assentia com a cabeça e dizia: ‘Que bom, não é?’.

Pelo caminho fui pensando em tudo o que eu escutara: Que amor é este, que me vê como um pedaço? Uma fração, que precisa do outro pra ser inteira?

Se eu estou com alguém é porque esta pessoa me faz bem e a recíproca é a mesma. Eu desejo um parceiro. Não é uma necessidade, mas, sim, um querer.

Maria Eliza sempre teve pavor de ficar só, ou passar um final de semana em casa, lendo, descansando, curtindo a sua própria companhia. Telefonava para uma amiga e outra, até que alguma quisesse acompanhá-la a uma festa.

Agora, já madura, não me admirava nem um pouco de que isso tivesse se transformado numa idéia obsessiva. Tinha que ter alguém.

Nós somos um todo como indivíduos e o amor é a aproximação de duas pessoas completas e não de pedaços.

Ficar sozinho, hoje em dia, já não apavora mais ninguém, porque isso é saudável. Cada um precisa do seu espaço. Não é egoísmo.

Se eu tenho uma boa relação com alguém, é muito bom. Um não exige, não cobra nada do outro. Assim, os dois crescem. Sem dependência, por amor, de verdade.

Sigo pensando na Maria Eliza. Tomara que ela se dê conta disso para que os dois não tenham só um arremedo de relação.



(03 de fevereiro/2007)
CooJornal no 514


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br