10/02/2007
Ano 10 - Número 515


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo
 


Bar do Aristeu




 


Minha antiga rua, hoje Cel. Fernando Machado, remonta aos primórdios da história da cidade, ainda no século XVIII. Seu nome era Rua do Arvoredo, devido à enorme quantidade de árvores existentes em todo o seu percurso.

Conta a história que ali viviam pessoas bem simples, em casas de capim. Tornou-se muito conhecida ao longo do século XIX, pela sua maravilhosa fábrica de lingüiça feita de carne humana.

O senhor José Ramos, dono de um açougue existente na Rua do Arvoredo, casado com Catarina, atraía, pelos atributos da mulher, pessoas para sua casa, a fim de matá-los e transformar seus corpos em lingüiças que eram vendidas a toda população e tidas como muito saborosas.

Conhecido e relatado em diversos livros e, até mesmo, em um seriado de televisão, este é um dos principais fatos que fazem a fama da Fernando Machado.

Hoje em dia, entretanto, existem outras coisas muito interessantes na antiga rua da lingüiça. Dentre elas, ganha destaque o Bar do Aristeu.

Esse não é o nome real do famoso estabelecimento. O verdadeiro é bem mais pomposo: Bar e Lancheria Beverly Hills, por ser anexo ao prédio onde residi o qual leva um nome ainda mais chique: Condomínio Edifício Beverly Hills- Suíte Service.

O bar do Aristeu foi criado, inicialmente, para ser uma lancheria, prestadora de serviços aos moradores do condomínio, servindo pequenas refeições, bebidas, etc, pedidas pelo interfone e entregues nos apartamentos.

Este serviço continua, porém, com o passar do tempo, o bar ampliou o seu atendimento a todo e qualquer cliente que adentre suas portas, sente-se em uma de suas mesinhas, na parte interna ou na cobertura externa e desfrute do “melhor cardápio da cidade”, conforme propagandeia um de seus sócios, o famoso Aristeu.

Não há, nas redondezas, quem não conheça o bar. Nem que tenha sido apenas uma vez na vida, o pessoal da vizinhança já almoçou ou aperitivou na lancheria Beverly Hills.

Vários famosos já fizeram dele o seu chão: Evaristo de Macedo, quando técnico do Grêmio, jantava sempre ali; Paulo Santana, Leopoldo Rassier (irmão de um morador do prédio), conhecido intérprete nativista, já falecido, Caubi Peixoto (pasmem), além de diversos cantores e componentes de bandas que vêm apresentar-se em Porto Alegre e hospedam-se no Residencial Arvoredo, um apart-hotel bem próximo.

Durante a penúltima copa do mundo, foi um Deus nos acuda! Não havia lugar para mais nenhuma viva alma dentro e fora do bar. Todos se reuniam ali para assistir às partidas. Principalmente as do Brasil, em grupos já conhecidos, acompanhados da velha e conhecida ‘loira gelada’, ou mesmo de uma 'pretinha' para passar o frio, junto dos deliciosos sanduíches abertos, torradas, ovos de codorna, batatinhas fritas que circulavam pelas mesas.

Na hora dos gols, era uma gritaria total, unindo todo mundo.

Estrangeiros, falando em inglês, querendo explicar que prato desejavam, tentando entabular uma conversação quase impossível com o garçom e o proprietário, de origem italiana e vindos diretamente do interior para trabalharem no bar.

Fotos para a posteridade. Grupos fazendo apostas sobre os resultados dos jogos. Um mundo totalmente à parte, onde pessoas que jamais tinham se visto, brindavam e gritavam juntos, numa euforia sem fim.

Desde então, tornou-se praxe: em qualquer jogo onde um de nossos dois maiores times gaúchos, Grêmio e Internacional, eternos rivais, estejam disputando, o Bar do Aristeu transforma-se numa extensão do estádio. São instalados dois aparelhos de televisão, um fora e outro dentro do estabelecimento, estrategicamente colocados, para que todos possam visualizar muito bem todos os lances da partida. A cada gol, é aquela gritaria. Os que estão ganhando, vibram de alegria, e os que ficam para trás, xingam, esbravejam e fazem as mais diversas apostas: “Se o meu time perder, eu visto a camiseta do teu e sirvo uma dúzia de cervejas pra ti e pros teus amigos. Mas se tu perderes, vais ser o garçom no próximo sábado, combinado?”

Desnecessário dizer que, no citado dia, o bar fica lotado de curiosos para assistirem à desgraça e vergonha do perdedor que é fotografado nas mais ridículas poses, prestando o serviço, vestido a caráter.

O pior disso tudo é que o outro sócio do bar, o Geno, é colorado fanático, enquanto o Aristeu torce pro Grêmio até debaixo d’água.


(10 de fevereiro/2007)
CooJornal no 515


Tania Melo é bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br