A vida deve ser um sonho que se recusa a confrontos.
Fernando Pessoa, in 'O Livro do Desassossego’.
Quantas vezes nos deixamos abater tremendamente por fatos que, se
analisados com a cabeça fria, em nada podem atingir-nos no interior, no
âmago, na alma.
O problema é que damos rédea solta às emoções e estas nos fazem confundir
coisas externas com situações que têm o poder de alterar a nossa
substância.
Sofremos muito mais pelo que julgamos ser do que por aquilo que realmente
é.
Se algo não acontece exatamente como esperamos, ou nos decepcionamos com
as pessoas que consideramos importantes em nossa vida, concluímos,
dramaticamente, que o mundo está contra nós, integralmente.
Nada disso. Podemos chamar esses acontecimentos de acidentes de percurso.
Assim como uma dor de cabeça, de estômago, um machucado no pé, nos
incomodam sem, entretanto, alterar nossa existência, da mesma forma sucede
com as vezes em que nos sentimos ridículos por termos cometido uma
tremenda gafe diante de alguém tão importante ou tido atitudes
inadequadas. São apenas resvalos da idéia tola de que ‘ é dessa forma que
eu sempre vou agir’.
Se conseguirmos ver tudo isso unicamente como estorvos externos, estaremos
protegidos contra o mundo e contra aquela parte avessa de nós, que sempre
nos critica e julga como menores diante dos demais, sofredores, com o
universo todo andando para lá enquanto insistimos na contramão.
Mesmo que tudo a nossa volta pareça estar vindo abaixo, não podemos nos
deixar soterrar. Permanecendo firmes e crendo que somos idênticos a todos
os nossos semelhantes, com qualidades e defeitos como qualquer um, só
teremos o trabalho de sacudir a poeira e seguir andando em frente, sujos,
mas inteiros e, o que é melhor, vivos, felizes por termos encontrado a
maravilhosa forma de viver sem confrontar e enxergarmos o grande presente
que é dar o braço aos que ainda precisam de auxílio para empreender a
caminhada.
(17 de fevereiro/2007)
CooJornal no 516