
03/03/2007
Ano 10 - Número 518

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Tania Melo
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Tania Melo
Irmãs siamesas
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A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo.
A justiça absoluta nega a liberdade.
Albert Camus in “O Mito de Sísifo”
Os cidadãos têm o direito de viver em liberdade, sem receio de
perseguições ou violência, em qualquer parte do mundo. No entanto, a
criminalidade e o terrorismo estão, hoje, dentre os fenômenos que mais
preocupam a todos.
Temos o direito de ir e vir, de nos comunicarmos, de moradia, de um
trabalho que nos permita viver condignamente. Temos direito à educação, a
lazer, a férias remuneradas, etc.
O ir e vir está se tornando tremendamente limitado. O medo toma conta das
pessoas, fazendo com que deixem de passear, com tranqüilidade, pelas ruas,
saboreando a vida.
Como podemos dizer que o homem é um ser livre, se, a todo instante vemos
mais e mais pessoas tornando-se vítimas, sendo assaltadas, agredidas de
forma violenta e mortas?
São centenas de casos por dia. Os noticiários de TV, rádio e jornal
transbordam violência ‘pelo ladrão’ (com duplo sentido, mesmo).
Um trabalho que permita viver condignamente é mais um dos direitos humanos
que só pode ser visto com uma luneta de grande resolução, pois a fatia
torna-se cada vez menor.
E o que dizer das escolas? Da educação? Os resultados dos exames do ENEM
por todo o território nacional nos dão a resposta, sem titubear.
Professores mal pagos, professores despreparados, com carga-horária acima
de suas capacidades, para conseguirem ganhar um pouquinho mais. Dão aula
aqui, com o pensamento lá na outra turma, na outra escola, nas contas a
pagar.
Então, temos aí, uma situação de impasse? Se há uma liberdade sem freios,
não há justiça e, em não havendo justiça, não há liberdade.
A partir de um certo ponto de preponderância exagerada de uma delas, a
outra começa a sufocar e a desaparecer.
Ninguém considera livre a sua condição de vida, se ela não for justa,
tampouco justa, se não for livre.
Ser livre não tem sentido se as pessoas não puderem viver em segurança,
protegidas por um sistema jurídico no qual possam confiar.
Precisamos de ambas, uma reconhecendo os seus limites dentro da outra. Não
há como separar estas duas noções. Uma não sobrevive sem a outra.
A liberdade precisa de espaço para que se desenvolva e, ao mesmo tempo,
não pode, de forma alguma fazer parelha com a tirania, nem com o medo.
Por outro lado, é necessário que haja o limite imposto pela justiça sobre
os atos das pessoas, pois, se queremos que respeitem a nossa liberdade,
nós também precisamos fazer o mesmo com relação a dos que nos cercam.
Concluo com uma citação do Abade Lacordaire:
“Entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o patrão e o
empregado, é a lei que liberta, é a liberdade que escraviza.”.
(03 de março/2007)
CooJornal no 518
Tania Melo,
bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
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