17/03/2007
Ano 10 - Número 520


 
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 Tania Melo


 
Tania Melo



Óia o Cachorro-Quente


 


Lembro de uma escola para onde fui designada, que ficava num município situado a uma distância que correspondia a uma hora de viagem.

Acho que eram, aproximadamente, uns 60 km que separavam minha casa do portão do colégio.

Não era ruim. Grande, com primeiro e segundo graus completos, bem estruturada até, levando-se em conta que era pública, estadual.

Eu trabalhara por algum tempo na Secretaria de Educação, em serviços burocráticos, num lugar central, próximo de restaurantes, lancherias, lojas e conduções.

Senti bastante a diferença, mas, por sempre ter gostado de lecionar, o dia passava rápido.

É claro que nos deram as turmas mais ‘barras pesadas’. Eram alunos de quinta a sétima séries, bi, ou até tri-repetentes.

Os primeiros dias foram os piores, até por não conhecer quase ninguém, enquanto que, na Secretaria, eu trabalhava cercada por uma enorme quantidade de amigas, com as quais conversava bastante.

Conhecia a diretora, por sempre estar em contato com o local de onde eu viera e a Leka, minha amiga e companheira de outras incursões pelas escolas da vida.

Levantava-me às seis horas e até chegar à escola eram sete e quarenta e cinco (exato momento em que a campainha soava e os alunos dirigiam-se as suas salas).

Ao meio-dia encerravam-se os períodos da manhã e, às treze horas, iniciavam-se os da tarde, o que nos dava uma mísera horinha de intervalo para almoçar e “esticar as pernas”.

Por esse motivo, sequer podíamos pensar em ir até algum restaurante do centro da cidade.

Só nos restavam um trailer, chamado House Dog’s, ou um bar situado em frente à escola.

Comer hambúrguer por um dia ou dois, até que a gente agüenta, mas de segunda a sexta, é pra matar.

Resolvemos, então, dar uma espiada no “bar da frente”.

Já na entrada, duas mesinhas com clientes de “primeira”, tomando pinga pura, ao meio-dia.

Depois de uma boa olhada, acabei comprando um pacote de salgadinhos e refrigerante.

A Leka, para não se deixar tomar pelo negativismo, afirmava:

“Pelo menos fica bem pertinho. Podemos descansar um pouco antes do horário da tarde”.

Eu tinha vontade de gritar, chorar e espernear.

Tentamos, em outra etapa, comprar um lanche no bar da escola e guardá-lo para o almoço.

Funcionou durante alguns dias, mas, além de termos de passar a pastéis engordurados, ainda tínhamos de comprá-los por volta das dez horas da manhã (no recreio), ou até antes, para comê-los, frios, no horário do intervalo.

Como dá para notar, a tortura foi prolongada.

Pensamos, então, em utilizar o fogão da escola e preparar alguma coisa mais decente. Só que esta idéia foi de girico, pois não havia tempo suficiente para prepararmos a refeição e ingeri-la. E ainda existia o inconveniente de precisarmos comprar os ingredientes, o que tornou a tarefa algo além da imaginação. Desistimos.

Num certo dia, anunciaram, de maneira entusiasmada, que o bar da frente da escola havia trocado de proprietários e que, agora, os novos donos iriam servir almoço.

Comida de verdade? Era bom demais!

No horário do meio-dia, lá fomos nós. Eu, confesso, não notei diferença alguma no visual e na freguesia.

Aproximamo-nos do balcão e, sem enxergar nada que se parecesse com uma refeição, perguntei ao dono:

“O que estão servindo, hoje?”

“Só têmo cachorro-quente”, me respondeu o infeliz.

Fui tomada por um calorão e devo ter ficado vermelha como pimenta.

Evitei olhar para a Leka, pois senti medo de não resistir e cair na gargalhada.

Para não perder a elegância, complementei a pergunta: “E o que vem neste cachorro-quente?”.

“Xarxixa e môio. Vão querê?”

Dá para concluir, fácil, fácil, o que eu gostaria de ter respondido, não é mesmo?

A frase entrou para a história. A cada vez que comemos cachorro-quente, rimos muito e perguntamos: "Tem xarxixa e môio?"




(17 de março/2007)
CooJornal no 520


Tania Melo,
bióloga e escritora
Porto Alegre, RS
tamelo@superig.com.br