
24/03/2007
Ano 10 - Número 521

Arquivo
Tania Melo
|
|
Tania Melo
Busca (vã)
|
 |
Ser alguém encantado. Sonhar-te fada, anjo, imaginar que podes voar.
Inútil. O despertar é triste demais. É te olhares no espelho e descobrires
que não tens asas, nem poderes, nem pó de pirilimpimpim.
Dói demais perceberes que és tão só um pobre ser humano, pequeno, que
tenta nadar, nadar, nadar, pra não se afogar, mas sente que as braçadas
são fracas e não tem mais onde buscar ajuda. A praia sonhada, repleta de
sol, então, sumiu ante teus olhos.
Já te basta um lugar qualquer pra descansar o corpo e o espírito
conturbado.
É um querer voltar no tempo e ser criança, sendo abraçada e acarinhada por
teus pais que já se foram e não voltam mais.
É querer abrir aquela janela do teu quarto e ver a roseira branca, coberta
de flores e perfumes, ver o céu e ouvir a voz da mãe, da mana e dos manos
chegando do trabalho.
É ver o pai, figura forte, lutadora, depois de dias de ausência, de viagem
em alto mar, retornando, sempre retornando.
Agora, não mais. Não mais a voz da mãe, não mais a chegada dos manos do
trabalho, não mais o retorno do pai. Não mais.
Agora, a solidão. Agora, a vista de cimento. O cinza. Agora o pranto que
explode do peito fazendo ver o quão pequena, és, o quão nada representas
para os outros.
E pra ti? Representas o quê? Quem és, na verdade, pra ti mesma?
Nem isso tu sabes responder. Só pedes, imploras e nada vem.
A paz não chega. O peito dói. A alma encolhe. O corpo já nao tem forças
para reagir.
Tudo é dor. Tudo é não saber. Um ponto de interrogação que se agiganta e
te encobre, sufocando.
Pra onde vais? Quem és? Não tens ninguém.
Principalmente, não tens a ti mesma. Estás só demais neste mundo.
Dormir, dormir, dormir.
Acordar em paz.
Mas não tem como.
O ruído das ruas não permite. O trem que passa te chama à realidade.
O som é de hoje, o medo é de sempre e a paz ficou no ontem.
(24 de março/2007)
CooJornal no 521
Tania Melo,
bióloga e escritora
Porto Alegre,
RS
tamelo@superig.com.br
|
|