01/08/2016
Ano 20 - Número 994


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ULISSES TAVARES
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Ulisses Tavares



Animista graças a Deus

Ulisses Tavares - CooJornal

Estou atualmente com 66 anos e alguns dias.

Preferia estar com alguns dias e 66 anos pela frente.

Mas se tem algo que aprendi como organismo complexo e consciente, único no planeta, é que a natureza segue seu curso totalmente fora de meu controle. Com sorte, driblando balas perdidas e pedradas do desamor, vivo mais algum tempo por aqui, antes de completar o ciclo búdico de nascimento, envelhecimento, doença e morte.

Como bom bípede humano velhinho e sambado, volta e meia meus pensamentos se transmutam nas duas questões principais do poente existencial: as carnais e as espirituais.

Das carnais, pouco há a fazer, já que definitivamente a Gisele Bündchen não irá me ligar e as desejáveis “vilamadalenenses” me veem como o homem invisível. E estão certas: velho, pobre, poeta, defensor de utopias, é a contramão da libido.

Já as espirituais, volta e meia desanimo.

As alternativas (são mais de 10 mil religiões e seitas terráqueas hoje, segundo as pesquisas, e se multiplicam como coelhos ecoando a nossa busca urgente por respostas) me parecem sempre pobres... de espírito!

Daí recorro as minhas bíblias, livros de antropologia e neurociência e gibis, para compreender que coisa é essa bagaceira de uns contra os outros e todos contra a fauna e a flora.

Bem toscamente resumindo o resumo da ópera da tragicomédia asinus (burro em latim arcaico) sapiens, tem sido mais ou menos assim:

Quando ninóis éramos caçadores coletores, animais e plantas estavam em pé de igualdade conosco, nem superiores nem inferiores.

Daí assentamos as peludas bundas em lavouras e criação de rebanhos.

E, já que viramos coxinhas prepotentes e controladores, inventamos uma porção de deuses para explicar e intermediar nossa relação com o mundo natural mortadela. Os reis da criação subjugando aquela incontrolável legião de seres vivos pronta para servir de comida e diversão. Os trocentos deuses eram facilmente aplacados com sangue de cordeiros e queima de ervas diversas. De um ponto fora da curva, os deuses de vez em quando exigiam o sangue fresco dos humanos, nada é perfeito.

Pulando alguns séculos politeístas, o monoteísmo imperou: um deus só simplifica a trabalheira de sermos geridos por ene chefetes espirituais.

Aliviou para os superbípedes humanos e ferrou de vez para os subsinumanos. Agora estávamos liberados para chupar de canudinho as carótidas da terra por decreto divino.

E vampirizar a natureza em suas múltiplas manifestações faz parte de nossa natureza predatória, com o auxílio das outras duas religiões predominantes contemporâneas, o capitalismo e o comunismo.

A esperança encurralada à esquerda e à direita. E a gente prensado no meio. Cúmplices e cínicos.

Para continuarmos e termos futuro, teremos de dar muitos passos atrás e nos reconciliarmos com todas as formas de vida. Voltarmos ao animismo.

A biologia não me permitirá ver isso acontecer, que pena.

Rejuvenesce-me a alma, porém, ser um militante da defesa animal e participante ativo de ações pelo meio ambiente e pela paz.

Dinossauro não se incomoda de ter virado galinha, vocês sabem, desde que continue vivo e com tesão.



- Comentários sobre o texto podem ser enviados, diretamente, a uuti@terra.com.br

(1º de agosto/2016)
CooJornal nº 994


Ulisses Tavares é poeta, professor, publicitário, jornalista,
dramaturgo, compositor, roteirista e ator
http://www.uliissestavares.com.br



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