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| Urda
Alice Klueger
ONDE ESTÁ O CALOR HUMANO?
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Tenho uma admiração enorme pelas gentes do Nordeste do Brasil, principalmente pelas gentes da Bahia, daquela terra que parece ser a pátria da gentileza e da alegria. Entrar em contato com um povo tão autenticamente gentil e alegre nos leva a fazer comparações com a nossa realidade do Sul, com o nosso povo que, sem dúvida, é altamente preconceituoso em relação à alegria e à gentileza. A arcaica tábua de valores sulista impede-lhe a gentileza
espontânea (só sou gentil se me convêm ou com quem eu conheço) e lhe poda, muitas vezes, a alegria que talvez gostasse de ter. Vou ilustrar o que penso contando dois fatos acontecidos comigo aqui no Sul, que jamais teriam acontecido em lugares onde há realmente calor humano:
Veraneio em Balneário de Camboriú, e perto do meu apartamento há um restaurante chamado Moustache, que serve muito boa comida. Criamos o hábito de ir lá, muitas vezes fazemos as nossas refeições, pois, além da boa comida, o Moustache tem preços acessíveis. Só que criei outro hábito, também: o de consumir, de vez em quando, uma batidinha de morango que é uma delícia, vendida nas barracas de praia de Balneário de Camboriú.
O dono do Moustache nos conhece, a mim e à minha família, e nos recebe com simpatia sempre que vamos lá. Sabe que gostamos da sua comida a sabe que os nossos cheques não voltam - enfim, sabe que somos bons fregueses. Mas mesmo com bons fregueses o Sul não abre mão de sua falta de gentileza e do seu pouco calor humano: outro dia fui, com minha família, jantar no Moustache. Todos sentados, saí para ir até uma barraca de praia, buscar uma batidinha de morango, que era o que eu mais queria no momento. Queria a batidinha e queria jantar, claro que faria a despesa normal no restaurante. E o que aconteceu? O dono do restaurante impediu-me de sentar à sua mesa com uma batidinha comprada de outro fornecedor. Como ele próprio não fornece batida de morango, e como eu não queria ficar sem jantar, tive que contentar-me em me sentar sozinha num banco, no calçadão, até acabar minha batida, enquanto minha família, no restaurante, conversava e tomava drinques "permitidos". Cadê a gentileza e o calor humano do Sul? Tal coisa jamais aconteceria no Nordeste a um desconhecido, quanto mais a um cliente habitual.
Outro caso: estava indo de ônibus para São Paulo. Andar de ônibus, no Sul, é deprimente: ninguém fala com ninguém, as pessoas evitam até de se olhar, creio que com medo de se comprometerem se gastarem um grama de simpatia com quem não conhecem. Não há, num ônibus do Sul, o menor vestígio da alegria que grassa nos ônibus do Nordeste, aquela alegria que faz com que quarenta horas de viagem passem num instante. No Sul, ao contrário, dez míseras horas entre Blumenau e São Paulo parecem não passar nunca, tal a frieza que existe dentro do ônibus.
Pois bem, estava num característico ônibus do Sul do Brasil, indo para São Paulo, todos quietos, nenhuma comunicação sendo possível, quando, em Curitiba, tcham, tcham, tcham, tcham... Em Curitiba adentra ao ônibus um boêmio. Lembro bem da sua figura: um advogado de meia idade, usando terno branco e de violão em punho. Era evidente que já tinha tomado todas as cervejas da capital paranaense, antes de tomar o ônibus, e elas lhe davam a loquacidade necessária para logo nos pôr a par de uma sua recente e dolorosa desilusão de amor. Há algo mais romântico e alegre do que um boêmio, de violão em punho, sofrendo de desilusão de amor? Claro que não há, e ele logo fez jus à sua condição, quando feriu os primeiros acordes do violão. Bate um coração no peito dos sulistas, claro que bate, embora seja muito feio que bata. Sei que os corações começaram a bater, e logo metade do ônibus acompanhava o boêmio nas suas canções doridas, e em surdina cantávamos desde Lupiscínio Rodrigues até Roberto Carlos, na mais agradável viagem de ônibus que já fiz no Sul do Brasil.
E o que aconteceu? Muitos quilômetros adiante, noite fechada, o ônibus pára. Ninguém sabia o que tinha acontecido, até que o motorista abriu a porta da sua cabine (motorista não tem cabine fechada no Nordeste), e foi taxativo:
- Estamos num posto da Polícia Rodoviária. Quem estiver fazendo barulho dentro do ônibus, salta agora. Se alguém fizer barulho depois, salta na estrada.
Embasbaquei. Lupiscínio Rodrigues, então era motivo de ser expulso de um ônibus em plena noite, aqui no Sul? Pior que era.
O mundo não é assim como aqui no Sul. Nem o Brasil é. Essa rigidez, esse preconceito contra a alegria, conta a gentileza, essa coisa de grosso, é coisa aqui do Sul. Infelizmente, a gente é daqui. Mas eu não me amoldo. Eu quero a gentileza e a alegria que fazem a vida tão bonita. Eu quero ir embora para a Bahia e tomar batidas de morango onde quiser. Pois lá também tem morangos, e também tem Lupiscínio Rodrigues. Tem tanto quanto aqui, e sem grossuras.
(setembro
2001)
Urda Alice Klueger
historiadora, arqueóloga, escritora
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau
urda@flynet.com.br
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