Urda Alice Klueger

   

OS BASTIDORES DA OKTOBERFEST

Com referência à Oktoberfest, falar das bandas, dos foliões e do chope é lugar comum - todo mundo faz isso. Há, entretanto, facetas da Oktoberfest das quais ninguém fala, e é a elas que eu vou me reportar.

Quem já prestou atenção no Departamento Médico que existe na Oktoberfest? Calma, não há nada de triste naquele departamento! Pelo contrário, é um dos lugares mais divertidos de toda a festa. É bem verdade que já vi chegar lá um enfartado, que, de imediato, foi levado para o hospital numa das ambulâncias de prontidão, mas casos assim são exceções, e poderiam acontecer em qualquer lugar, até no sagrado recinto do lar, de uma forma bem menos alegre, sem chope e sem música.

Quem chega lá aos montes, aos magotes, é a moçada que ainda não aprendeu a beber. Quase todos estão naquela faixa de idade que precede o tempo das responsabilidades, digamos assim entre 16 e 20 anos. Eles adentram à Oktorberfest achando que já são adultos e querem provar isso emborcando chopes sobre chopes, fazendo aquilo que todo adulto já fez um dia, antes de aprender a beber. Resultado: acabam indo dar com os costados no Departamento Médico, ou levados por amigos, ou na padiola dos seguranças, devidamente desacordados, em pleno coma alcoólico. Não pense o leitor que eles chegam lá raramente, e nem que todos sejam rapazes. As moças bebem e se estrepam tanto quanto os meninos, e, amigos ou namorados atarantados acompanham as padiolas delas como o mesmo alarido com que acompanhariam a um camarada do mesmo sexo.

Formam-se filas à porta do Departamento Médico, e o atendimento é feito de acordo com a gravidade do caso: os desacordados são levados de imediato para dentro; os que se agüentam de pé são enfileirados num banco e aguardam a vez, enquanto vomitam sem o menor pudor sobre os próprios pés.

Já gastei muitas horas espiando pelas janelas de Departamento Médico da Oktoberfest, a ver o atendimento dos bebuns desavisados. Eles são auscultados, tiram-lhes a pressão e, em 99% dos casos, um médico enfadado pela monotonia dos casos, aplica-lhes um injeção de glicose na veia. E os nossos meninos e meninas para os quais a festa se acabou, via de regra, ficam como mortos, a boca aberta, dormindo pesadamente nas macas do departamento, enquanto os(as) amigos(as) e namorados(as), do lado de fora, espiam pelas janelas para ver o que acontece. E o que acontece é que em pouco tempo todas as macas estão cheias e falta lugar para uma nova remessa de adolescentes que se julgavam adultos.

Que se faz, então? Com a maior naturalidade, os enfermeiros carregam os desacordados e os depositam no amplo gramado que rodeia o Departamento Médico, onde eles podem dormir tranqüilamente até o porre passar. Fim de festa para eles, fim de festa para os amigos. A "turma" não abandona o seu membro prejudicado - a festa acaba para toda a troupe. Como o resto do grupo também já se acha bastante alcoolizado, creio que é até providencial tal parada, tal assistência ao amigo(a) que foi para o brejo.

E, pela madrugada afora, os grupos no gramado se multiplicam, e os nossos meninos e meninas brasileiras são solidários e gentis, e ajudam a vigiar eventuais turistas desacompanhados que foram parar no mesmo gramado, impedindo que ali ajam, por exemplo, os batedores de carteira, ou alguém que queira perturbar aos desavisados turistas que decidiram tomar chope em carreira solo. É bonita a fraternidade dos jovens irreverentes e cheios de chope. Pena que os desacordados percam o espetáculo.

Eventualmente, no Departamento Médico, também aparecem os brigões, com a testa aberta por um caneco de chope ou com o nariz sangrando, mas eles são bastante raros. Os bebuns, com certeza, ganham a Palma de Ouro do espetáculo!

(Há outras facetas nunca exploradas da Oktoberfest a serem abordadas, mas o espaço acabou. Fica para outra vez.)
Ein prosit!

Blumenau, 16 de Outubro de 1995

(outubro 2001)


Urda Alice Klueger
historiadora, escritora 
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau 
urda@flynet.com.br