| Urda
Alice Klueger
O ALEGRE DIA DE FINADOS
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Meus colegas daqui da página gastam preciosas energias discutindo a existência ou inexistência de Deus, vã discussão sem solução - eu prefiro gastar as minhas energias em coisas mais construtivas. Só a título de curiosidade, sou da ala dos que crêem num Ser Superior, tenha ele o nome que tenha, e acho que há coisa mais interessantes a serem feitas na vida do que questionar o que não conseguimos explicar. Infinitas injustiças já foram praticados em nome de Deus, e muitas coisas boas também o foram, e acho mais divertido pensar nas coisas que se originam da idéia de Deus do que entrar na briga dos colegas.
Uma das coisas que se originou da idéia de Deus foram as religiões. Cada pessoa, neste nosso planeta diversificado, acaba tendo a sua, nem que seja a religião do poder, ou do consumismo, e por
aí afora. Eu sou mais tradicional: como boa brasileira híbrida, também sou híbrida na área religiosa. Minha mãe é católica; meu pai, luterano. Lá nos idos de 1944, quando se casaram, ficou estabelecido que os filhos seriam criados na Igreja Católica, e assim aconteceu. Mas na prática, eu e minhas irmãs nos criamos indo as duas igrejas: sempre havia a Confirmação de algum primo, ou o casamento de alguma prima, ou o enterro de algum tio velho - estivemos a granel na Igreja Luterana por toda a nossa vida, apesar de termos nos criados como católicas praticantes, naquela época anterior ao Concílio Vaticano II, onde a Igreja Católica, no Brasil, era mais uma religiosidade do que um religião (e creio que ainda não mudou muito).
Vamos, porém, ao que interessa: as engraçadíssimas diferenças de comportamento que existem entre as duas religiões. Eu vivi cá e lá, até hoje a minha família é composta das duas tribos, e sempre tive muito vivo, em mim, o senso de observação. Foi ótimo, para mim, ter tido a sorte de ter nascido em uma família religiosamente híbrida - como poderia ter tido a oportunidade observar tantas coisas se não fosse assim? Às vezes chego a pensar em escrever um romance sobre as diferenças de comportamento das duas religiões, mas vou
me ater, aqui na crônica, apenas a um dos acontecimentos anuais que muito me diverte: o Dia dos Finados.
Nosso roteiro, no Dia de Finados, é longo: começamos por ir ao túmulo do meu pai, no cemitério de Velha Central - acabamos, horas depois, no cemitério da Rua Progresso, em Blumenau. Alternamos diversos cemitérios católicos e luteranos, e é muito engraçado observar as diferenças. Vamos a elas:
Cemitério luterano: as pessoas lá vão muito bem vestidas; os homens, de terno; as mulheres, em discretos vestidos de seda. Todos falam em voz baixa e pausada, todos se comportam de uma forma respeitosa e solene. Os túmulos são limpos na semana anterior; quem chega vem sobraçando elegantes buquês de flores naturais. Na porta do cemitério, o máximo que existe é uma mocinha educada, que oferece um discreto folheto com um Salmo referente à data. Tudo respira de uma forma respeitosa a homenagem aos antepassados, e a gente se sente solene só de estar lá.
Mas daí a gente continua a peregrinação e vai dar em um cemitério católico: é a festa! Em cemitério católico, no Dia de Finados, só falta a roda-da-fortuna: o cemitério está rodeado de vendedores de algodão-doce, de pipoca, de flores, de cata-vento, e por aí afora. Daí a gente entra: como é animada a balbúrdia! As pessoas estão lá de shorts e chinelos, lavando os túmulos com escovas e grandes baldes d'água, num afã tão animado que se tem a impressão de que querem que os antepassados vejam como são esforçadas! Escovam, lavam, e conversam animadamente, e não é incomum o encontro de conhecidos, três túmulos adiante, que não se viam desde o ano anterior:
- Fulano! Há quanto tempo! O que é que é o neném que a Aparecida estava esperando? Ah! Menino? Batizaram de Romário? Ai, meu Deus, ainda me arrepio quando penso no Tetra! - e ninguém tem a menor preocupação com a solenidade que a gente acabou de encontrar no cemitério luterano.
- Apareçam lá em casa para tomar umas cervejinhas! - tem outro contente com o encontro de conhecidos, a falar alto, enquanto acende aquele mundo de velas que vão deixar manchas horríveis no granito do túmulo. Isso sem falar das muitas flores de plástico, e daquelas coroas de papel roxo, tão a gosto dos católicos.
Eu me divirto. Gosto daqui e de lá. É como se viajasse da comportada Europa para o Brasil cheio de vida, e fico feliz pelo meu hibridismo. É bom ser brasileira, é bom estar entre duas religiões, entre muitas culturas. Os meus colegas da página podem continuar discutindo sobre Deus. Eu prefiro me divertir com o que os homens fazem.
Blumenau, 15 de novembro de 1995
(novembro
2001)
Urda Alice Klueger
historiadora, escritora
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau
urda@flynet.com.br