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Urda Alice Klueger
NOSSA MAJESTADE, O GELO |

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O calor
chegou e deve durar até Março ou Abril, e mais que em qualquer outra época do ano,
nós, brasileiros, fazemos questão de um leite gelado, de um suco gelado, de um cerveja
"estupidamente" gelada, para usar o jargão de bar, e sequer nos passa pela
cabeça que isso não é regra no mundo. Estava a lembrar do livro "Henfil na
China", diário de bordo do nosso grande cartunista que se foi embora antes da hora
(descobri, faz pouco tempo, que a nova geração nunca ouviu falar em Henfil, e então
esclareço : Henfil é irmão do Betinho, o da Campanha Contra a Fome - além de grande
cartunista era hemofílico, e foi uma das primeiras vítimas da AIDS cá na Terra de Santa
Cruz).
Mas eu falava do livro "Henfil na China", onde muitas vezes ele se reporta ao
hábito chinês de beber água quente, fervendo, conservada em garrafas térmicas para
manter a temperatura ideal para a sede dos chineses. Cá entre nós, nada melhor que uma
água fresquinha, de preferência gelada, para a nossa sede brasileira, e deverá ser um
tremendo sacrifício para um de nós ser servido de água fervente na hora da sede, se
algum dia formos à China. O testemunho de Henfil, digamos, é o outro lado da moeda, o
oposto ao nosso gosto pelo gelado, mas é coisa que acontece a muitos milhares de
quilômetros de distância, lá do outro lado do mundo, no misterioso oriente, não parece
real. Continuamos achando que , tirando os chineses, todo o mundo é doidinho por quase
tudo gelado, como nós, mas não é verdade.
Aqui do nosso lado, lugar onde se pode ir de ônibus, ficam os países andinos, e quero
ver quem consegue uma cerveja gelada no alto dos Andes! Tá, sei que a maioria vai dizer:
mas é porque lá é frio. Frio é, mas sem exageros. Mesmo numa montanha que fica a
5.300m acima do nível do mar, onde estive, na Bolívia (Chacaltaia), a gente agüenta bem
com uma camiseta e um blusa grossa de lã. E estive lá nos mês de Maio, entrada do
inverno. Portanto, nada de frio assustador (está-se muito próximo da linha do Equador),
mas também nada de cerveja gelada. A cerveja "Paceña" é servida diretamente
do engradado para a mesa do freguês, e, pasmem: apesar do frio razoável, há no ar
alguma coisa que mantém os picolés fora da geladeira sem derreter. Eu não queria crer
quando vi o primeiro saco de aniagem cheio de picolés vermelhos sendo conduzidos pela
rua, e a primeira bandeja cheia de picolés sendo vendida num estádio. Parece não ser
verdade, mas é. Fico pensando que até os picolés dos Andes não são muito gelados.
Depois do parênteses dos picolés, que achei que deveria contar pelo inusitado da idéia,
vamos dar um pulo a uma ilha do Caribe: Cuba.n Cubano não gosta de gelo de jeito nenhum,
e gelo eles têm, apesar de estarem em falta na maioria das coisas que a gente precisa
para viver. Em Cuba, eu não conseguia, de jeito nenhum, fazer algum garçom entender o
que queria dizer quando pedia "um copo com muito gelo". Muito gelo, para eles,
é uma pedrinha de nada, um mísero caquinho no fundo de um copo. Depois de uns dias,
comecei a entrar atrás dos balcões para mostrar para os garçons o que queria dizer
quando pedia um copo com muito gelo, e eles ficavam boquiabertos, assustados, e diziam que
eu ficaria doente. Escandalizei totalmente uma amiga que fiz em Cuba, uma artesã chamada
Navidad, quando lhe contei que as nossas crianças tomavam gelado desde pequenas. Ela
girou o indicador do lado da cabeça, para dizer que nós éramos loucos, e explicou: gelo
faz mal para os cubanos, dá-lhes dor de cabeça, deixa-os doentes. Quando penso nas doses
imensas de rum puro (à temperatura ambiente) que bebem como se fosse água, não acredito
muito que um pouquinho de gelo possa lhes fazer mal. É a diversificação das culturas:
se bebêssemos todo aquele rum que eles bebem, sem dúvidas que seríamos nós que
ficaríamos com dor de cabeça.
Bem, demos uma volta por alguns lugares, a analisar a temperatura das bebidas, e vimos que
nem todo o mundo gosta de suquinho gelado e duma cerveja "estupidamente", como
nós. Dá para sobreviver nos Andes e em Cuba, mas não consigo me imaginar a tomar água
fervente na China. Acho o melhor, mesmo, é ter leite na geladeira, e água, e muito gelo
para o uísque e cuba-livre. Tentem se imaginar bebendo um capilé de Max Wilhelm saidinho
do fogão: não há brasileiro que agüente!
Blumenau, 05 de dezembro de 1995
(novembro 2001)
Urda Alice Klueger
historiadora, escritora
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau
urda@flynet.com.br