Urda Alice Klueger

   

Um Homem Chamado Jorge Amado - I I


No dia seguinte, na hora aprazada, Tânia Rodrigues e eu saltamos de um táxi diante da casa de Jorge Amado. Ela se situa no bairro do Rio Vermelho, o primeiro dos bairros na orla marítima de Salvador, e está construída sobre um morro. A parte que dá para a rua está cercada por um alto muro, e os meninos da vizinhança picharam esses muro com seus sprays, criando nele todo o tipo de desenhos e de slogans. Há apenas uma porta encravada nesse muro, onde, depois que tocamos a campainha, fomos de imediato atendidas por uma simpática empregada chamada Rose, que já nos esperava. Ela conduziu-nos a uma sala de visitas onde, numa mesa cheia de livros espalhados sobre toalha de crivo, Jorge Amado nos aguardava. Fiquei toda orgulhosa ao ver um livro meu sobre aquela mesa.

Acho que vale a pena contar sobre a casa de Jorge Amado. Ele e Zélia construíram aquela casa faz mais de 30 anos, quando o bairro do Rio Vermelho era ainda pleno subúrbio, e não região altamente valorizada e urbanizada que é hoje. Estão no topo do morro: lá de cima, tem-se esplêndida vista para o mar e para a baía de Todos os Santos, o que, aqui no Brasil, é coisa muito valorizada. Na época, os dois plantaram à volta da casa muitas e muitas mudas de árvores, e com a facilidade que existe aqui no Brasil de as floresta se desenvolverem, hoje a casa está no meio de uma verdadeira floresta, que, inclusive, tirou a vista do mar.

A casa é ampla e arejada, adequada ao clima baiano, e está rodeada por espaçosas varandas, onde, tive a impressão, é o lugar onde Jorge Amado e Zélia Gattai passa a maior parte do seu tempo. Num dos lados tem um piscina antiga, sombreada de árvores. Por toda a casa, tanto do lado de dentro quando nas varandas, prateleiras correm ao longo das paredes, prateleiras pejadas de objetos de arte de todas as partes do mundo, que o casal colecionou durante toda a sua vida. A impressão geral que dá é de frescor, de leveza, de paz, quase como se a casa e sua pequena floresta fossem voar.

Jorge Amado acabara de sair da piscina. Usava bermudas azuis e uma camisa muito florida, desabotoada. Disse-nos para que ficássemos à vontade, e passamos a remexer nos livros que estavam sobre a mesa, quando entrou na sala a luz chamada Zélia Gattai.

Eu sabia que, indo à casa de Jorge Amada, acabaria conhecendo Zélia Gattai, e imaginava que ela seria um pano-de-fundo para o que ocorresse lá. E quando ela chegou e trouxe toda a sua luz, bastaram alguns segundos para que ficasse evidente que quem se tornara pano-de-fundo era Jorge Amado.

É impossível conceber-se Jorge Amado sem Zélia Gattai. Há que se ler os cincos livros de memórias e o romance que ela escreveu, para se ter uma idéia de quem é Zélia. Mas há que se conhecê-la pessoalmente para se aquilatar o real valor daquela mulher.

Zélia é a mais meiga, mais linda, mais forte, mais intensa, vibrante e suave das mulheres. Conhecê-la foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida - que dizer da sorte de Jorge Amado, que priva da sua presença há mais de cinqüenta anos? A imensa energia de Zélia nos envolveu, e, quando dei por mim, estávamos todos sentados numa das varandas, com Rose, a empregada simpática, a nos servir sorvetes.

Eles são extremamente simples. Jorge Amado estava sentado em confortável cadeira de lona, e Zélia acomodara-se em lindíssima cadeira-de-balanço, antiga peça muito bem trabalhada em madeira negra que, ela explicou, é a última peça que resta das que seu pai trouxe da Itália quando imigrou para o Brasil. As cadeiras estavam próximas, e era evidente a compreensão e o carinho com que os dois se tratam. Começamos a conversar, e eles nem se davam conta dos gestos de ternura que faziam um no outro: Jorge Amado acariciava com leveza a nuca de Zélia, num lento e suave movimento que dura há mais de cinqüenta anos; Zélia, por sua vez, acariciava com a mesma leveza a perna que ele cruzara ao sentar-se, e aquilo era uma coisa tão natural entre os dois, refletia uma intimidade e um entendimento tão grandes, que senti a garganta apertada de emoção.

A conversa correu leve e fácil. Os dois, agora, nos contavam de passagens de suas vidas e de suas famílias (naquele dia, seu filho João Jorge fazia 47 anos, e eles tinham comemorado com um almoço).Fomos interrompidos pelo telefone: um amigo de Portugal estava a ligar, e eles ficaram passando o telefone um para o outro, e conversando animadamente com o português como se ele estivesse ali junto. Depois, nossa conversa continuou, mas aí Jorge Amado lembrou-se de que tinha um recado para seu motorista, e chamou-o. Um simpático baiano apresentou-se, e recebeu a incumbência de ir buscar uma caixa de doces na casa de alguém que voltara de viagem do Ceará.

- Vá depressa! - brincou ele. - Fulano é muito guloso, se deixar os doces lá por muito tempo, ele é capaz de comer todos!

Simples, brincalhão, de repente ele se lembrou que não nos oferecera um bebida. Atrás de nós havia uma porta com um bar evidentemente super-sortido, e ele liberou:

- Vão, vão ali, peguem a bebida que vocês gostam! Não se acanhem, fique à vontade!
Não me servi, havia acabado de tomar o sorvete e não queria perder nenhum momento do que estava acontecendo: aí Jorge Amado resolveu nos mostrar a casa.

Com simplicidade de um velho tio, ele nos levou por toda a sua casa. Conhecemos seu computador, especialmente adaptado para ele, que está com sério problema de visão, o primeiro computador da sua vida, pois, enquanto enxergou bem, sempre usou a máquina de escrever. Ele quis nos mostrar como funcionava o computador, mas atrapalhou-se com os comandos - era evidente a sua saudade da velha máquina de escrever.

Andamos por toda a casa, até o quarto do casa nos mostraram, mas, sem dúvida, o mais impressionante de tudo, é um biblioteca que existe na casa. É nessa peça que trabalha uma moça simpaticíssima, que é secretária do casal, chamada Rosani, e é ela que mantém organizados e encapados os livros que lá estão.

A sala é ampla e a biblioteca é bastante grande, e fiquei de boca aberta quando soube que tipo de livros havia ali. Naquelas prateleiras estava um exemplar de cada edição de cada livro de Jorge Amado em cada língua em que eles haviam sido publicados, e o meu coração brasileiro bateu forte ao ver o feito que um compatriota conseguira. Penso que, provavelmente, nenhum escritor vivo, no mundo, possa ter uma biblioteca como aquela. Os livros estão impressos em mais de 50 línguas e, se considerarmos que há línguas que são faladas numa porção de países, como o inglês e o espanhol, nossa cabeça dá um nó na hora de fazer as contas. Jorge Amado tirou da prateleira um livro ao acaso e o abriu: estava escrito em caracteres estranhíssimos, que com certeza não era o chinês, nem japonês, nem árabe - tratava-se, decerto, de alguma escrita asiática, e ele riu e fez um comentário sobre como se saber que tipo de tradução tinha sido feita do seu livro naquela língua da qual não entendíamos patavina!

Andamos, depois, ao redor da casa, vimos a piscina, embrenhamo-nos pela floresta até avistar o grande mar-oceano lá embaixo, e, coisa curiosa, por toda a parte havia sapos. Não eram sapos vivos, mas uma incrível coleção de sapos de pedra, de acrílico, de cerâmica, de todos os materiais, dispostos pelas calçadas e ao redor da piscina, presos ao chão com cimento, uma imensa coleção de sapos de todas os formatos e tamanhos como nunca julgara existir. Eram sapos de todas as partes do mundo, colecionados durante as muitas viagens do casal.

E, no meio da floresta, um escultura de Exu, em metal branco, Exu, o orixá brincalhão, trazido há cinco séculos da África para o Brasil, e hoje um dos orixás importantes do candomblé brasileiro.Com muita graça, Zélia Gattai nos contou como explicara para o netinho a personalidade de Exu, recriou para nós um episódio familiar daqueles que sempre acontecem entre avós e netinhos, fez-nos crer que ela era uma avó quase igualzinha à qualquer avó.

Voltamos às varandas, passamos de novo pela escultura dos cachorros com que iniciei esta matéria, ele bateu de novo no cachorro que voltou a ser impulsionado pela mola que o colocou a furunfar, Zélia brigou com ele de novo, a simplicidade deles era uma coisa tão marcante que a gente se esquecia de que se tratavam de dois monstros sagrados. Zélia nos mostrou seus objetos de arte preferidos, e nunca me esqueço de uns vasinhos que as mulheres iraquianas usam para recolher as lágrimas de saudade, quando seus maridos estão viajando. Ela nos falou, também, do seu primeiro romance, que ia acabar dentro de alguns dias, e eu a admirei ainda mais: ao 78 anos, e a começar uma carreira de romancista!
Assim, conversando aqui e ali, passaram-se umas duas horas, e chegou um médico com o qual ambos faziam fisioterapia. Era hora de irmos. Fomos todos, de novo, para mesa da sala, a Tânia e eu recebemos diversos livros autografados pelos dois. Enquanto eles escreviam suas dedicatórias nos livros, chegou de volta o motorista que fora buscar os doces. Era uma caixinha de madeira cheia de doces de caju, especialidade do Ceará, e, não perdendo a oportunidade de fazer um brincadeira, Jorge Amado explicou ao médico:

- Sicrano me mandou TRÊS caixas de doces do Ceará, mas Fulano, que as trouxe, muito guloso, já comeu duas. Foi sorte termos salvado esta!

Ríamos enquanto ele abria a caixa. Fez questão que provássemos os doces de caju, comemos todos em conjuntos, ele a elogiar o caju cearense, e o ambiente era alegre e descontraído como a casa de gente em dia de festa. Doía um monte, mas em seguida tínhamos que ir embora. Os sonhos não duram para sempre, e o nosso estava se findando. Efusivamente, Jorge Amado e Zélia Gattai se despediram de nós, para se entregarem às mãos do fisioterapeuta. E a gente foi embora. Mas nunca poderei esquecer!


Blumenau, 02 de Março de 1996.


(março 2002)


Urda Alice Klueger
historiadora, escritora 
Membro da Academia de Letras de Santa Catarina
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina
Blumenau 
urda@flynet.com.br